sábado, outubro 04, 2008

Cena da roça



A chuva da manhã trouxe consigo as nuvens que acinzentaram o dia e um mormaço que deixa a gente sem vontade de fazer nada, numa preguiça boa. Pois foi dessa preguiça sonolenta que o barulho incomum da passarada e um zumzum no galinheiro vieram me tirar.

Estico os braços, suspiro e vou até a varanda dar uma espiada no que acontecia; não levou muito tempo pra que descobrisse o motivo de tamanho alvoroço entre os bichos de pena: era revoada de içá. O leitor urbano ficou na mesma, mas calma lá que eu esclareço.

Içás são as jovens formigas aladas que nessa época saem em revoada em busca de lugares para criar novas colônias. Nos dia de içá é grande o alvoroço entre os bípedes plumados e, em alguns lugares, dos bípedes sem pena também: é que içá torrado é uma iguaria apreciadíssima em certas regiões brasileiras, notadamente no entorno do vale do Paraíba. Ainda hoje é possível ver gente de latinha ou vidro nas mãos em busca do olheiro de onde saem as formigas voadoras. Por essas e outras bem diz o povo que "quando quer se perder, formiga cria asas". Lobato mesmo foi um grande apreciador de içá torrado, que os amigos mandavam de Taubaté para ele.

Fui ao quintal e vi que a galinhada estava em polvorosa com os içás que caíam no galinheiro, mas de olho comprido nas outras que vagavam pelo gramado. Abri a porta do galinheiro e foi aquela festa: voavam ou saltavam de pescoços espichados pegando as formigas em pleno vôo, ou saíam em desabalada carreira com as asas abertas.

Andorinhas em rasantes riscavam o céu como pequenos filetes negros; um bem-te-vi enchia o papo executando piruetas no céu. Achei um olheiro que parecia um bico de chaleira em ebulição: centenas de milhares de içás testavam as asas pela primeira vez. Com um quit-quit chamei a galinhada, e foi um banquete: brigavam como doidas diante de tanta fartura.

Muitas vezes tenho dó de matar esses insetos tão organizados e trabalhadores, mas quando vejo o marmeleiro tosado ou a mexeriqueira de galhos nus me vêm ímpetos hitlerianos, e lá me vou atrás do formigueiro, com a bomba de Pika Pau nas mãos. Já está novamente o raro leitor de cara torcida, sem entender o que escrevi, e pensando em procurar algo melhor para ler. Mas se continuou, lá vai a explicação: Pika Pau é uma famosa marca de formicida em pó, que através de uma bomba inalamos (não é essa a palavra correta, bem sei, mas foi a que melhor calhou) no formigueiro.

A noite, que estava à espreita por detrás do morro, aproveitou que o sol começou a se esconder e veio surgindo de mansinho. Uma estrela aqui, uma sombra ali, a passarada foi sumindo, o galo buscou seu poleiro e só algum pinto tresmalhado piava aflito em busca da mãe.

A brisa que sacudiu o arvoredo também aliviou o mormaço; o céu já perdia todas as cores, tornando-se azul escuro, e com alguma estrela surgindo no meios das nuvens esfiapadas.

Foi-se o dia, veio a noite. Mais uma noite da roça.




quarta-feira, outubro 01, 2008

A arte de comer bem

Estou restaurando um livro de receitas de 1939, intitulado 'A arte de comer bem', de autoria de uma certa Rosa Maria.

Fora o fato do livro chegar até mim em estado lastimável, pelo uso que teve, o que me chamou a atenção foi o conteúdo deveras interessante.

Resumindo: o livro foi escrito por uma "mãe", com dicas e receitas para a "filha"; daí encontrarmos desde como colocar a mesa, passando por escolha da criadagem, até sugestões de jantares informais, ceias íntimas, chás da tarde, etc, etc.

Durante a limpeza e desmontagem dos cadernos não tem como deixar de ler certos trechos, daí eu ter selecionado alguns, que seguem nas fotografias abaixo.

Ainda que eu tenha achado muita frescura, não posso negar uma coisa: as pessoas valorizavam a educação e a cordialidade. Atraso era algo imperdoável, coisa que hoje é normalíssimo. Estranho é ser pontual. Ceder a vez à damas, respeitar os mais velhos, tudo isso foi-se embora, já que vivemos numa era pop. Concordo que naqueles tempos havia muita hipocrisia, muita coisa de fachada, claro, mas educação, como bem diz minha avó, não ocupa espaço e nunca é demais.

Olhem as atribuições da dona da casa:


Faz-me rir:


Gostei da "delicadeza" no preparo (hehehe):


E tem gente que reclama da sujeira dos pombos, sem pensar no seu valor nutritivo:


O tatu, ao lado da tartaruga, já vem com panela própria...


Bom apetite e boa semana.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O poço do Visconde




Com esse oba-oba em cima das novas descobertas de petróleo, o nome de Monteiro Lobato sempre vem à baila, na maior parte das vezes de modo equivocado e superficial.

A última foi da Dona Dilma, que disse que o Brasil descobriu "petróleo atrás do galinheiro", numa referência ao Sítio de Dona Benta.

No livro "O poço do Visconde", publicado em 1937, Lobato mostra o sabuguinho como sumidade em petróleo e graças ao faz-de-conta da Emília é fundada a Cia. Donabentense de Petróleos.

Claro que o ilustre Visconde estava certo e o petróleo jorra no pastinho da vaca Mocha (não no galinheiro), trazendo riqueza e prosperidade, isso porque a sabedoria de Dona Benta aplica corretamente o lucro obtido com as perfurações.

É um livro escrito pra crianças, mas com assunto que interessa à gente grande. Vale a pena ler.

As fotos que ilustram este post são do meu exemplar da segunda edição, com as magníficas ilustrações do Belmonte. Dona Benta a guiar o automóvel é uma das melhores imagens, apesar de não condizer com o texto: na verdade o chofer oficial era Pedrinho.




Imagens: http://picasaweb.google.com.br/urupes1

terça-feira, setembro 02, 2008

Incrível

Já vi muita coisa nessa vida, mas uma relação tão bonita e confiante como a desse filminho, jamais: um menininho de seus dois anos e pico, talvez, e um enorme e pachorrento labrador convivem mais que pacificamente - a palavra é amorosamente.

Num mundo em que pais matam filhos, é reconfortante ver que o instinto se sobrepõe à normas morais ou arquétipos do que é família.

Família é mesmo o instinto de preservação ancestral.

Três minutinhos só, vale a pena.


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domingo, agosto 31, 2008

Lobato

Estes vídeos foram feitos para a Semana Monteiro Lobato, na Livraria da Unesp, quando meus livros foram expostos.

O primeiro mostra a praça da Sé em diversos períodos. Foi ali que Lobato teve o escritório de sua editora entre 1924 e 25.
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O segundo mostra alguns livros infantis com a saga do Picapau Amarelo, e os diversos ilustradores através dos tempos.

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O último mostra alguns exemplares de minha famosa Lobatiana.

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sexta-feira, agosto 15, 2008

Minhas outras vidas


Meu lado afro que morreu no Vietnã.


Com sérios problemas de identidade sexual em 76.


Minha vida nos anos 80 como inventor de um software que me tornou biliardário.


Eu era bicheiro e tinha um opalão no fim dos anos 70!


Black power!


Eu, empresário bem sucedido em 1972.


Como gerente do Banco do Brasil em 64.


Como galã da TV Tupi, em 1956.


Como crooner de orquestra nos anos 50.


Professor universitário em 74.

Copiei da Letícia, que descobriu graças à Tia Cris.

Gostou? Faça suas "regressões": Yearbook yourself

terça-feira, agosto 12, 2008

Nota aos leitores

Vocês sabem o quanto eu gosto de livros antigos, não é à toa que abracei a profissão de restaurador e encadernador depois de velho.

Cada livro nos reserva uma surpresa, um bilhete perdido, uma pétala ressequida, uma anotação à margem. Fosse eu contar a história de alguns deles e teria matéria para vários posts.

Mas é que acabo de receber um livro pelo correio, vindo lá do Rio Grande do Sul, tchê, e não segurei a risada ao ler a nota ao final da obra. Tal qual a eterna rixa entre cão e gato, gavião e pomba, Clodovil e a humanidade, entre escritor e revisor também há uma eterna má vontade, esquecidos que um não existiria sem o outro.

Existem histórias lendárias sobre atritos, erros célebres, coisas curiosas. Conheço revisores que na verdade são melhores que os autores, e acabam por reescrever a obra, do mesmo modo que há autores que nem precisariam que seus textos passassem por revisão. Enfim...

Aqui o autor usa de leve ironia (pelo menos foi essa minha interpretação), pois diz que houve esmero na revisão, mas que mesmo assim alguns gatos escapuliram.

De qualquer modo deixo a imagem da nota para que vocês se divirtam; no fundo achei graça no fato do autor admitir seus erros e pedir desculpas ao distinto público. Hoje em dia, infelizmente, temos que engolir os erros sem a menor dose de humildade.



Ah, foi retirado do livro Compendio de Psychologia, de Henrique Geenen, editado em 1925 pela Cia. Graphico-editora Monteiro Lobato, Praça da Sé, 34 - São Paulo.

Boa semana, e este texto NÃO foi revisado.

domingo, julho 06, 2008

As baronesas de Piracicaba

Em descarada carona no assunto do Flanela, eu também resolvi postar algumas imagens e tecer meus comentários sobre nossa (Madame Letícia e eu) excursão sociológica no mundo do consumo de luxo em São Paulo.

Mas mérito a quem tem: o fato de toda a fiação ser subterrânea na rua Oscar Freire confere um ar de civilização sem par. Para quem, como eu, gosta de fotografar - mesmo sem o menor talento - a ausência daquele emaranhado de cabos é uma grata surpresa. Vejam as imagens abaixo: o belíssimo sobrado na esquina da Franca com Haddock Lobo, e uma panorâmica da Oscar Freire, no cruzamento com a Augusta.




Claro que nesse passeio diversas pérolas se nos depararam aos globos oculares. Graças à Lei Cidade Limpa centenas de fachadas e marquises foram postas abaixo e, tal-qual muitas das senhouuuras que vi flanando pelos arredores, mostraram o que havia por baixo da maquilage.



Em outro extremo, para ficar up-to-date é preciso muita textura e neocrááássico na fachada. Proporção? Simetria? Besteiras...



Considerado um dos templos do luxo na cidade, o restaurante Fasano tentou encobrir a vizinhança plebéia numa legítima - e bela - fachada neoclássica, com direito à hera e tudo o mais. Pena que ficou na fachada, como mostram as falsas janelas em ambas extremidades...



Mas para coroar nossa expedição, um belo exemplo de cidadania e respeito às leis: o cidadão estaciona seu bólido bem diante da saída do caixa automático - com notável guia rebaixada.



Vemos na imagem um dos motoristas barrados com ar de impotência diante da cena. Dentro do carro imediato uma simpática jovem (sim, caros leitores, reparei muito bem na moçoila) levava as mãos à linda cabecinha, inconformada com a situação.

Mas para encerrar esta modesta porém sincera reportagem investigativa e - por quê não? - denunciativa, um outro ângulo da simpática família que atravessava Óxxxcarr Frrreirrre alheia às tendências da moda... nos últimos 60 anos.



Boa semana!

PS: não concordo em absoluto com o título pejorativo de "Piracicabas", mesmo porque a local de origem não tem nada a ver com atos de cafonice e peruíce do
cerumano. Quem me conhece sabe que eu sou do interiorrrrr.

segunda-feira, junho 30, 2008

A bela e a fera

Domingo à noite, o sono demorando a aparecer, ligo a televisão em busca de ajuda para adormecer: sempre existe um programa soporífero, que em poucos minutos nos faz cair em letargia.

Pois comecei a assistir um que, ao contrário do que esperava, espantou de vez o sono, não por que fosse de qualidade ou interessante, mas sim pelas situações absurdas que mostrava.

O tal programa se chama Doutor Hollywood, e conta as “agruras” de um cirurgião plástico com consultório em Beverly Hills. Nem comento o fato do dito cidadão, brasileiro radicado nos Estados Unidos, falar como se lá tivesse nascido, num português macarrônico, esquecido da língua-mãe. Acho isso de um pedantismo à toda prova: falar em português entremeando expressões inglesas porque esqueceu a palavra na língua original. Humpf.

Isso, porém, não foi o pior; é apenas o aperitivo para o que viria. Primeiro uma moça de 21 anos que queria seios maiores porque iriam ajudar em sua carreira. Ah, detalhe: ela era cabeleireira. Pois é: para cortar cabelo alheio ela precisa de um par de balões. E eu, que há anos corto o cabelo no Bola, sem nunca me preocupar se ele tem ou não “seios fartos”! Bruta béstia...

O outro caso era de uma senhôôôuuura queria esticar a fuça, como se isso fosse impedir que soubessemos que ela já estava “descendo o morro”: uma mulher de 50 anos NÃO consegue ter aparência de 35, mas foi exatamente isso que o cirurgião prometeu: quinze anos a menos, como se fosse desconto que vemos em vitrine de loja. O melhor de tudo: a bruaca foi lá intimamente desejando que o médico falasse que ela estava ótima, que não precisava de nada. Ingênua... Pois o dito-cujo, além das rugas que incomodavam madame, achou de esticar pescoço, trocar queixo, aumentar maçãs do rosto, o diabo. Claro, até eu que sou mais tonto faria o mesmo: o negócio dele é ganhar dinheiro com isso.

Além dessas duas, o auge foi uma atriz (?) de filmes 'adultos', querendo seios perfeitos e naturais... mas de silicone, claro! Aí começa o festival de peitaria prá lá e prá cá; lembrei dos leilões de gado pela televisão, onde desfilam com dificuldade vacas com úberes imensos. Ela - a moça, não a vaca - perdeu muitos trabalhos por não ter o peitame bonito, por isso queria trocar as próteses.Sim, caros leitores, ela já tinha peitos com 450 mililitros (outra novidade do mundo moderno: no meu tempo dizíamos que a mulher tinha peitos ovo frito, pêra, mamão ou jaca. Hoje mede-se em litros). Só que o raio do médico, muito 'ético' (claro, cheio de câmeras mostrando suas 'angústias e dilemas'), recusa-se a fazer a cirurgia caso a paciente não abandone o cigarro. Ela, num arroubo (claro, diante das lentes tinha que se perfazer), irrita-se com o doutor e diz que irá em busca de outro profissional.

Eu já ando farto e refarto de ver essas notícias de Botox, cinco litros de silicone, lipoaspiração, lifting e o raio que os parta. Cada vez mais vemos pessoas deformadas com tantas intervenções, no mais dos casos ficando piores do que já eram (ou não). Há pouco tempo vi uma entrevista de uma líndíssima – e novíssima – modelo que havia feito preenchimento labial. A moça, perfeita, submeteu-se à essa intervenção, que nãããão deu certo, e lá ficou com bico de pato um par de meses.

Fique claro: não sou contra a cirurgia plástica, assim como não sou contra a cesariana. Sou contra o modo com que são feitas, como se fossem garantia de felicidade e sucesso. No Brasil, em menos de 30 anos, inverteu-se radicalmente a forma de trazer crianças ao mundo: sofrer horas? Imagine! Parto com hora marcada. Ganha o médico, ganha o hospital, ganha (?) mamã. Amamentar? Cruz-credo!

Assim vamos caminhando, dando forma a velha idéia de que aparência é tudo. Vamos vendo cada dia mais mulheres com pele alaranjada, rosto sempre sorridente, olhos orientais, ao lado de homens com cabelos de boneca, peitorais de silicone e prótese peniana. Felizes, claro, pelo menos na aparência. Graças ao bom Deus que não podemos devassar suas almas – se é que eles tem.


Boa semana!


PS: para ilustrar o texto uma imagem nada original: Donatella Versace, padrão de “beleza” atual. Não bastasse a faccia, olhem os pés! Ficou igual a um tatu-canastra, raça de porcos muito comum antigamente no interior do país. Ah, Donatella é a que está sem colar.

sexta-feira, junho 27, 2008

Árvores

Hoje passei pela avenida São Luiz e me encanta aquele arvoredo que ali resiste, plantado desde o tempo em que a região era, literalmente, um feudo dos Souza Queiróz. Essa avenida foi aberta no meio da Chácara Velha, propriedade rural da família desde o século XIX. Uma sombra aconchegante, um cenário agradável no bruá-á-á da metrópole.

Depois passei em frente ao cemitério São Paulo e os ipês roxos estão acintosamente floridos. Sim, acintosamente, essa é a palavra: contra a arquitetura cinza e o céu poluído da cidade os ipês provocam com sua explosão cromática. Assemelham-se a gigantescos buquês na paisagem urbana.

Daí a buscar no fundo da memória um texto que escrevi sobre as árvores em São Paulo foi um pulo. Lá vai ele, requentado, sim, mas pra não deixar meus dois ou três assíduos leitores sem minhas lorotas. :)


"Muitos bairros de São Paulo têm nomes de origem indígena, como Ibirapuera, Moema, Itaim, Mooca; outros graças à religião do colonizador europeu: Luz, Penha, Freguesia do Ó, São Miguel, Consolação. Muit0s, porém, foram batizados com nomes de árvores, se bem que pouca gente atente para isso. Na verdade, de tanto ouvirmos uma palavra acabamos por não lhe perceber o real sentido. Sim, existe gritante o Bairro do Limão, que talvez seja o que mais se destaca, visto que esse fruto está no cotidiano das pessoas, da limonada à caipirinha.

Comecemos por Pinheiros, o bairro que ganhou esse nome por conta das araucárias (pinnus braziliensis) que ali abundavam, e estendeu o nome ao rio que margeia a região. Em imagens antigas da Capital é possível ver as imponentes araucárias, ou pinheiro do Paraná, já que sua concentração nesse estado é (ou era) maciça. Hoje acho difícil encontrar no bairro um pinheiro remanescente da vegetação original. Pode ser que em algum quintal exista um, com suas folhas espinhentas como ouriço, e que só depois dos 20 anos ganham a célebre copa em formato de taça. E muitos desconhecem, por incrível que pareça, que o pinhão tão apreciado nas festas de junho é fruto desse pinheiro.

O cemitério é conhecido, mas a árvore que o batizou, quem conhece? Sim, araçá é uma espécie de goiaba, muito doce, e que era comum nos campos que ficavam entre Piratininga e a aldeia dos Pinheiros. Pois foi nesses campos que surgiu o segundo cemitério da cidade, batizado com o nome da gostosa frutinha que nasce nos araçarizeiros. Em alguns dessas grandes lojas de plantas é possível encontrar mudas dessa fruta, de médio porte e que pode ser cultivada em vasos.

Quando Vargas tomou o poder, derrubando a política café-com-leite, uma das primeiras ações da população paulistana foi empastelar uma delegacia célebre pelas torturas praticadas, e que entrou para a história como a Bastilha do Cambuci. E quem conhece um cambuci? Eu mesmo nunca topei com um – e se topei não dei conta disso. O Larrouse me diz que a “Campomanesia phaea tem crescimento moderado, floresce de agosto a novembro e seus frutos comestíveis ou ingeridos como sucos, são também consumidos por pássaros. A árvore reúne ótimas características ornamentais, principalmente pela forma delicada da copa e da folhagem, indispensável nos reflorestamentos. Altura de 3 a 5 metros”. Será que ainda existe algum cambuci no Cambuci? Acho que lá só tem uma igreja e um hospital militar. E malhação de Judas em sábado de Aleluia.

Quem já se deparou com uma sapopemba certamente ficou impressionado com seu tamanho. Da família das figueiras, é também conhecida por gameleira, já que sua madeira se presta para confecção desses utensílios. São árvores cujas raízes formam pequenas paredes no entorno do imenso tronco. Frondosas, rareiam na cidade que afugenta o verde. Hoje só deve ser encontrada em algum parque ou praça de periferia. É uma pena, pois poucas árvores são tão majestosas quanto essa que batizou um longínquo bairro paulistano.

Que me lembre são esses os bairros que receberam seu nome graças a alguma árvore ligada à sua história. Homenagem só do Bosque da Saúde e da Praça da Árvore, que coletiva e singularmente lembraram dessas que tornam menos árida a vida na cidade.

Viva São Paulo e suas árvores, reais ou da memória.

(Publicado em 20/05/2007. E já tenho um pezinho de cambuci plantado aqui no quintal; vamos ver se ele frutifica. Araçá eu já colhi.)

domingo, maio 25, 2008

Das coisas que me acontecem...

Para Ana Ramón, amiga que, do outro lado do Atlântico,
compartilha comigo as experiências surreais com os bichos.


Neste mundo existem pessoas que atraem para si situações pitorescas, fora do ordinário cotidiano. São aquelas pessoas que contam histórias inverossímeis, de fazer o ouvinte olhar com rabo dos olhos, mas inquestionavelmente reais. Pois eu me incluo nesse grupo, claro que vocês já devem ter percebido isso com meia dúzia de coisas que contei aqui. Hoje me aconteceu mais uma, digna de figurar entre as “Dez mais” da minha vida.


Haja visto que a maioria das pessoas sensatas tem como animal de estimação um cão, um gato ou um passarinho - as mais sensatas mesmo não têm nenhum. Como não me incluo nesse grupo, no quintal de casa cantam galos, cacarejam galinhas, grasnam gansos e marrecos e pavoneiam-se pavões. Isto, por si só, já bastaria pra dar uma medida da minha excentricidade, mas quando quero provar alguma coisa vou até o fim.


Acontece que nessa fauna emplumada existem sujeitos que odeiam viver encerrados atrás das telas e grades do galinheiro; assim que pilham uma brecha, lá fogem eles e começam a reinar pela vizinhança. Esses desajustados sociais são os pavões – e principalmente as pavoas. Pois foi exatamente uma delas que causou o incidente que vou narrar hoje.


Na quinta-feira, feriado de Corpus Christi, não havia ninguém em casa, e foi quando sucedeu o infausto acontecimento. Aproveitando-se da casa vazia – quando os gatos saem os ratos fazem a festa - , a danada resolveu escapulir. O que ocorre é que se deu mal na tentativa de fuga, e ficou com a perna presa na tela do galinheiro. Sabe Deus quanto tempo a pobre se debateu na tentativa de se desvencilhar da armadilha montada por ela mesma. Quando minha mãe chegou ouviu um bater de asas desesperado e foi olhar o que havia. Deu com a cena que descrevi, e a sorte foi que um dos meus irmãos chegou a seguir, e conseguiu soltar a coitada. Mas o estrago já estava feito: havia fraturado a perna, e a coisa foi feia. Como a bichinha estava com muita dor – sim, ela gritava, e só quem já ouviu gritos de um pavão sabem o que é – minha mãe começou a tentar encaixar o osso. Mexe e remexe, em dado momento a criaturinha sossegou. Então, com ajuda de meu irmão, fizeram uma tala com taquaras, gaze e esparadrapo e a deixaram em paz.


Isso tudo foi no finalzinho da tarde, eu não estava em casa. Quando cheguei ninguém falou nada: minha mãe proibiu comentários, sabia que eu iria ficar fulo da vida, praguejando contra a pavoa destrambelhada. E foi isso mesmo quando ela me contou na manhã de sexta-feira, visto que precisávamos levar a coitada da pavoa ao veterinário. Descobrimos um que atendia aves, e lá nos fomos para Osasco, uns vinte e tantos quilômetros daqui de casa. Para que a pavoa não se debatesse eu a enfiei dentro de uma camiseta, que é a melhor maneira de se carregar frangos, patos e semelhantes: passa-se o pescoço do bicho pela manga e com o restante enrola-se o corpo, prendendo bem as asas. Isto feito, partimos em demanda do médico, mas foi viagem perdida: o raio do doutor que atendia aos bípedes emplumados só chegava às 14:00 horas. Bem, vamos dar meia-volta e...

- Cáspite!!! (não foi isso que falei, mas o decoro e o respeito às famílias que me lêem obrigam-me a distorcer os fatos). A diaba havia me borrado a calça! Minha mãe ria às bandeiras despregadas. Suspirei e voltamos pra casa.


Depois do almoço voltei ao consultório, dessa vez sozinho; quer dizer, sozinho não, que a doente ia comigo. Ela estava num sossego de dar gosto: depois que lhe vesti a camisa, ficou bem quietinha, apenas mexendo os curiosos olhos pra todo lado:

- Olha só a confusão que você aprontou!

- ...

- Não adianta se fazer de desentendida, não! Tá aí, toda quebrada...

- ...

- Macaco que muito pula leva chumbo, nunca ouviu falar?

- ...

- Humpf!


De volta à clínica, fui alvo de todos os olhares, quer dos cães e gatos, quer de seus donos. Afinal, não é todo dia que se vê um sujeito com um avejão debaixo do braço, inda mais se o tal avejão estiver usando camiseta de grupo escolar...


Sentei para preencher a ficha, pererequei pra conseguir segurar a pavoa e tirar os documentos da carteira; depois de anotar meus dados, a atendente perguntou:

- Qual o nome do animal?

- Nome? Ela não tem nome.

- Ah, preciso colocar na ficha do paciente.

- Hum... Coloca aí: Peste!

- Ai, moço... Tadinha...

- Tadinha? Peste sim, olha só o que ela aprontou... Põe Peste mesmo.

- Ah, desanimou a moça. Então Pestinha, vai?

Farto daquilo, aquiesci com a cabeça:

- Hum-hum.

- Pode esperar o doutor chamar.


Enquanto me dirigia em busca de lugar para sentar todos os olhares me acompanhavam. Uma velhinha a um canto, seca como um maracujá e dona de um vira-latas esfumaçado, perguntou se era um pavão.

- Pavoa, respondi com um meio sorriso.

- Ah. E o que ela tem?

- Quebrou a perna, e antes que a velhinha perguntasse como, já contei o acontecido.


Nisso entra uma mulher gorda; mas imagine alguém muito gorda; coloque mais duas arrobas* e você está vendo a tal mulher, que surge sendo arrastada por um enlouquecido labrador resfolegante. O cachorro assustou um gato, fez xixi no balcão, cheirou – e irritou – o cachorro esfumaçado, pulou no aquário, fazendo as recepcionistas levarem as mãos à cabeça. Eu segurei firme a pavoa, só faltava ela sair voando pela clínica; Pestinha ficou ressabiada, eriçou as penas da crista, mas não passou disso. Enfim a gorda estacionou e o cachorro ficou menos inquieto.


Foi aí que surgiu um médico surgiu no corredor e chamou o paciente:


- Lilu!


“Ai meu Deus! Eles chamam pelo nome do bicho! Tô frito...”. Passaram-se alguns minutos e ouço: “Pestinha!”, enquanto olhares de reprovação me fulminam...


Pra resumir a história: levei a pavoa até o consultório, depois fomos tirar radiografia – e tive que me paramentar com roupa anti-radiação - , até o diagnóstico:

- Bem, ela realmente teve uma fratura séria, e existem duas opções: cirurgia, com colocação de um pino, ou simplesmente imobilizar a perna com uma tala, que permanecerá por trinta dias...

Suspirei e perguntei qual o valor de cada um dos procedimentos:

- A cirurgia em torno de 350 reais, a tala fica uns 100.

Aí foi minha vez de sentir dor. Devo ter feito uma cara bem compungida, pois ele continuou:

- Olha, no caso dela acho que a cirurgia é dispensável. Ela é nova, está saudável e vejo que o senhor é cuidadoso.


Autorizei os procedimentos, ele disse que ela ficaria ali e que eu voltasse buscá-la no dia seguinte. Aproveitei pra trocar a camisa suja enquanto esperava alguém que iria levá-la para o ambulatório. Apareceu um molecote com cara de palerma, perguntou se aquilo era uma galinha d´Angola, pegou-a de mal jeito, quase quebrou a perna dela novamente. Suspirei. Assinei a papelada e paguei a conta: 235 reais... Peste!


Sábado, voltei à clínica para buscar a infeliz; tomei um chá-de-banco de meia hora, ao cabo da qual fiquei sabendo que não poderia levar Pestinha pra casa. O motivo? Ela havia entornado o pote d´água e molhado o gesso. Minha vontade foi de fazer uma eutanásia ali mesmo, mas me contive. Tinha outros compromissos, não poderia esperar refazerem tudo novamente. Teria que voltar no domingo à tarde.


Voltei pra casa refletindo sobre a insignificância humana diante dos desígnios misteriosos do destino e pensando em procurar na internet alguma receita de pavão assado...


Domingo, após o almoço, liguei para saber se não haveria outro imprevisto e falei com o veterinário; disse que eu poderia ir buscá-la. Saí de casa numa animação sem tamanho, temendo ser vítima de nova surpresa preparada por minha pavoa delinquente.


Esperei durante quarenta minutos – duas emergências, coincidentemente intoxicação por inseticida – até que fui chamado:


- O dono da Pestinha!


Sob olhares da assistência, fui buscar a criaturinha que tanto trabalho me deu. Ela estava ótima, com a perna engessada. Coloquei-lhe uma camisa limpa e viemos pra casa. Agora está lá quietinha, sozinha num viveiro. Vamos ver o que apronta durante os 30 dias em que deverá ficar de molho. Novas notícias a qualquer momento em boletim extraordinário.

E Boa Semana!


* Arroba: antiga medida equivalente a 15 quilos. Hoje só serve pra endereço de correio eletrônico.

sábado, abril 19, 2008

Livros raros de Monteiro Lobato

Livros raros de Monteiro Lobato em exposição na Livraria Unesp

Livros raros de Monteiro Lobato em exposição na Livraria Unesp
Os visitantes da Semana Monteiro Lobato, que a Fundação Editora da Unesp e Livraria Unesp promovem a partir desta sexta-feira, dia 18 de abril, terão a oportunidade de conhecer obras raras de Monteiro Lobato.
Além da primeira edição do livro Narizinho Arrebitado, de 1921, e de outros de autoria de Monteiro Lobato nos anos seguintes, serão também apresentados livros editados pelo escritor, no período em que a Cia. Graphico-Editora Monteiro Lobato funcionou na Praça da Sé (1924 a 1925), no mesmo prédio onde hoje estão instaladas a Fundação Editora da Unesp e a Livraria Unesp.
São obras como Minha Vida Minha Obra, de Henry Ford, A Angústia de Don João, com poemas de Menotti Del Picchia, Padre Belchior de Pontes, de Julio Ribeiro, Paulistica, de Paulo Prado e A Marqueza de Santos, de Paulo Setúbal. Alguns exemplares da Revista do Brasil com artigos de Lobato também integram a mostra.

Há, ainda, ilustrações dos livros de Lobato de diferentes épocas e autores como Voltolino, Belmonte, Kurt Wiese, Jean G. Villin e outros até a atualidade.
O acervo pertence à coleção particular de Ricardo Ferreira, restaurador de livros e pesquisador da vida e obra de Monteiro Lobato.
Serão ainda exibidos vídeo e painéis fotográficos com a história de Monteiro Lobato. Os visitantes também receberão um livro de degustação, com os primeiros capítulos de Reinações de Narizinho, para crianças, e O Presidente Negro, para adultos, oferecidos pela Editora Globo, que apóia o evento.
A Semana Monteiro Lobato acontece na Livraria Unesp (Praça da Sé, 108) e fica aberta de 18 a 30 de abril, de segunda a sexta, das 9h às 18h e aos sábados, das 9h às 13h, com entrada gratuita. Mais informações: www.editoraunesp.com.br

Fonte: Pluricom Comunicação Integrada

quinta-feira, março 27, 2008

Dinheiro e felicidade


A minha antiga e incessante busca por exemplares dos livros infantis de Lobato editados pela Companhia Editora Nacional me reservava uma grata surpresa. O correio de hoje me trouxe um livro comprado num sebo pela internet que superou minhas expectativas por sua excelente conservação.

Dez reais (mais $5,50 do frete) que deixaram meu dia bem feliz.

E dizem que dinheiro não compra felicidade? Compra sim, e chega pelos correios!

Quanto a saber encontrar a felicidade nas coisas simples, aí já são outros quinhentos...

domingo, março 23, 2008

Quando eu era criança...

Semana Santa sempre me traz à memória algumas coisas marcantes de minha infância. Talvez Freud explique com palavras mais técnicas, mas eu prefiro a definição do Guilherme de Almeida: que somos reflexos de nossa infância.

Pois bem, quando eu era criança (sim, já fui criança um dia, apesar de ter gente que prefira acreditar que eu tenha vindo pra cá com o Circo Espacial), a partir da quinta-feira já se iniciava uma série de “não pode” e “é pecado” que nos inculcava um sentimento de culpa tão grande que a maior impressão que tenho desses dias era de escuridão, melancolia.

Não se podia ligar TV, rádio, vitrola, jogar bola, brincar, falar alto, xingar alguém, brigar, dar risada. Em casa, apesar do catolicismo mais de tradição que religião, essas regras eram observadas da mesma forma... Era somente um hábito que todos seguiam. A bacalhoada da sexta-feira era (e ainda é) imprescindível. Mas no sábado é que a coisa ficava boa: malhar o judas.

Antes de me escarnecer, lembre-se que eu tinha 7, 8 anos, e não entendia nada sobre perdão ou justiça. Crianças, para nós o que valia era a lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Voltemos ao judas: era preparado com antecedência, deixando os retoques para a manhã do sábado tão esperado. Muitas vezes recheávamos o boneco com bombinhas; mais crescidos e maliciosos usávamos meias cheias de papel costuradas na braguilha aberta. Políticos sempre emprestavam o rosto ou o nome, e lembro de uma vez que minha madrinha fez com que retirássemos o nome do então presidente Figueiredo (“Credo, se a polícia pega vocês vão ver o que é bom!”)

Os postes eram poucos pra tantos bonecos. Ao meio-dia, rojões pipocavam pelo céu e começava a malhação. Em menos de 15 minutos só restavam trapos e jornal queimado pela rua, misturados ao cheiro de pólvora e uma sensação de dever cumprido: nós havíamos vingado Nosso Senhor! No dia que me perguntaram: “Mas se Jesus perdoou Judas, porque vocês fazem isso?” minha resposta foi o silêncio. Como diz o ditado, de boas intenções é calçado o caminho do Inferno.

Isso não nos tornou bandidos ou justiceiros, foi apenas uma fase de nossa vida. Hoje eu não incentivaria os filhos que não tenho a fazer o mesmo, pois por mais que sejamos reflexos de nossa infância, temos a capacidade de pensar e ver o que foi fundamental na nossa formação. O Sábado de Aleluia fica como uma lembrança da intolerância e da violência em nome de uma boa causa. A mesma intolerância que vemos todos os dias em nossa vida, a mesma dificuldade de perdoar e esquecer.

A dificuldade de oferecer a outra face.

Feliz Páscoa e Boa Semana a todos!


quarta-feira, março 12, 2008

E foram felizes para sempre...

Depois de uma traumática experiência com bolo na sexta-feira, o final de semana * me reservava mais dois bolos, dessa vez de casamento. Como eram bodas de pessoas queridas e civilizadas, eu tinha certeza de que não haveria “avança”, tampouco sacolas ou tuppewares transbordando com massa emplastada em glacê.


Não, esta não será uma “reportagem de coluna social”, falando sobre os gentis nubentes, nem descrevendo a furtiva lágrima que singrava o belo rosto na mãe da noiva, tampouco que o salão estava feericamente iluminado, como um céu de estrelas. Não, nada disso. Relaxem.


No sábado dia 26 de janeiro, mesmo dia em que meus pais comemoravam 34 anos de casamento, a Marininha ia celebrar a sua união com o Hélio. Marininha, pra quem não sabe, trabalhou comigo muito tempo e, por conta de ser prejudicada verticalmente (em tempos de politicamente correto não posso chamá-la de pitoca, anã de jardim, playmobil, toco-de-amarrar-jegue...), bem, por conta disso ela sempre foi vítima de minhas piadas, infames quase todas. Mas ela sabe o quanto me é cara ao coração.

Não conhecia o Hélio, mas sei que ele é um sujeito de muita sorte, pois conseguiu conquistar o coração da Marina, que é uma das pessoas de quem mais gosto, seja pela simpatia, seja pelo humor. Eu já conhecia os pais dela e por isso havia descoberto a origem de tanto espírito.


A Silvia (cuja jovialidade me impede de usar o dona), é uma pessoa que encarna o savoir-faire paulista, aquela jeito de tratar a todos com naturalidade e simpatia. Quando ela chegou ao salão, cumprimentando parentes e desconhecidos - Olá, eu sou a mãe da noiva- , estava em seu ambiente: natural, simpática, dona da situação. Só mesmo alguém com classe pode fazer piada sobre padres e criancinhas minutos antes do casamento de sua primeira filha. O Pena, pai da noiva, é outra figura cujo humor e simpatia seguiram geneticamente para a filha: inúmeras vezes o vi tranquilizando a mãe preocupada ou a filha nervosa: “Calma, está tudo em ordem”. Circulava entre os convidados ensaiando passos de dança, sorrindo e agradecendo pela presença de todos naquele dia tão importante. Isso sem falar nos avós maternos da Marina, que adentraram na capela muito tesos e elegantes, num passinho miúdo de quem já muito andou nesse mundo, e se apresentando como se fossem os noivos. Risadas de todos diante de humor tão fino e agradável.

Bem, a cerimônia foi linda, o bufê impecável. Mas o melhor de tudo foi a Marininha, ao nos ver ali, vir correndo de seu modo tão peculiar: braços estendidos, corpo gingando, totalmente desconjuntada, rindo e falando, tudo isso pra culminar num abraço apertado e inacreditavelmente imenso. Prova cabal e inquestionável de que tamanho não é documento.



No dia seguinte, o casamento de Ana Paula e Fernando, ele igualmente velho amigo de trabalho. Já o conheço há uns bons anos, também vítima de minhas reinações, notadamente em reuniões da qualidade com presença de trastes e capadócios históricos. Fernando muito sério, coitado, preocupado em exercer sua função enquanto dois ou três sarambés discutiam o sexo dos anjos, num palavrório tão imbecil quanto inócuo. Nessa hora eu entrava em cena: fazia caras e bocas, soltava longos e profundos suspiros, atirava comentários irônicos, tudo isso olhando para o pobre Fernando, que se contorcia para prender sua célebre gargalhada.


Já com a Aninha minha amizade é mais recente, o que não o impede de ser tão forte quanto a que tenho com Fernando. Ela é daquelas pessoas que encontramos e logo descobrirmos ser “amigo de infância”, ou seja, pessoas que casam com nosso jeito, que partilham de crenças e valores semelhantes. Tanto é que ela me surpreendeu ao convidar-me para seu padrinho, coisa que em primeiro momento achei que fosse piada. Quando finalmente acreditei nem pude mensurar minha alegria.

O que dizer do casamento deles? Perfeito, como o da Marina? Soaria repetitivo, eu sei, mas essa é a verdade. A belíssima cerimônia foi coroada com o sol, que decidiu sair detrás das nuvens onde se escondera toda a manhã, manhã essa que ameaçava chuva e frio.


Os pais da noiva? Ora, como explicar a emoção que víamos nos olhos de Toninho e Zoraide? Nos gestos e palavras de ambos a preocupação com os convidados, se tudo estava certo. Não cabe aqui o carinho que transbordava de seus olhares para com os noivos. Nem tenho o que dizer deles, pois só o tanto que me aturaram, filando café e bóia em sua casa? Isso já lhes garante o céu... Aliás, a conversa no altar era sobre a doçura de Zoraide: Deus quando a criou, além de inspiradíssimo, jogou a forma fora para que não houvesse criatura igual neste mundo. Coisa de artista que nunca quer cópia de suas melhores obras. A mãe do Fernando, Dona Maria, e que eu não conhecia, mesmo assim fez com que eu desse uma sonora gargalhada em meio ao salão, ao fazer um trocadilho quando puxei um “Viva” aos noivos. Aliás, trocadilho esse impublicável e mesmo porquê levemente desairoso para com o noivo. Pena não ter compartilhado mais de sua companhia, que me parece ser extremamente risonha e franca, como diz o poeta.


Isso tudo sem contar o fato de ter reencontrado velhos e bons amigos, e de ter ficado fazendo algazarra enquanto esperava o momento de subir ao palco, ops, altar. Foi um dia muito divertido, contrariando o provérbio popular de que a perfeição não existe.


Se ambos os casais tiverem pela vida metade da felicidade que senti, podem ter certeza de que suas vidas serão encantadoras.


Ah, e os bolos estavam ótimos!!!


*Escrito em 28 de Janeiro, mas só publicado hoje. As imagens que ilustram este texto são de autoria deste humilde escriba.


segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Que palpite feliz!

Hoje criei coragem e comecei a arrumar e limpar meus livros. Esses que vocês vêem nas fotos abaixo são apenas uma parte, os de Lobato e livros de História em geral (memórias, biografias, ensaios, etc). Na próxima semana será a vez de literatura em geral e outros mais. Depois serão revistas, jornais, fotografias...





Agora antes de voltar ao lugar, cada um está sendo limpo e cadastrado, além de inspecionado minuciosamente. E isso por um agradável motivo.

Semana passada encontrei a primeira edição de "Minha vida e minha obra", do Henry Ford, editada pela Cia. Gráfico-Editora Monteiro Lobato em 1925.

O livro está desgastado pelo tempo e por isso resolvi restaurá-lo; já havia soltado as capas, descosturado os cadernos e deixei mais um pouco para desacidificar, antes de começar a limpeza do miolo. Foi aí que encontrei um bilhete da loteria paulista do ano de 1927.


Em perfeito estado e conservação para sua idade ele correu no dia 18 de março desse mesmo ano e seu valor era de 500 contos de réis. Foi vendido numa agência da praça Antonio Prado, conforme informa um carimbo estampado nele.

Vai daí que achei um bom palpite e apesar de nem saber jogar no bicho, resolvi apostar na sorte. Pois não é que no 6° prêmio sai o número inteirinho? Mamei R$ 350,00 reais da banca. Pois é: faltando um mês para completar oitenta e um anos o bendito bilhete fez alguém feliz.

Depois tem gente que diz que livro velho não serve pra nada...

Ah, perdoai, Senhor, eles não sabem o que dizem.

Hehehehe, hehehehe!

Semana passada comprei essa revista, de 1963, e o que me chamou a atenção foi o título: uma adaptação fonética do original - Wood Woodpecker - mas com um subtítulo que se transformaria no nome oficial dessa personagem aqui no Brasil.



Cada uma...

Tico-tico ali...

Não consigo postar algumas fotos aqui no Boa Semana, entonces quem quiser ver uma família de tico-ticos recém-nascidos clique aqui.

Boa semana!

terça-feira, janeiro 29, 2008

A praça mais feia de São Paulo



Tem gente que vai encrespar comigo, já imagino, mas na minha opinião a Praça Roosevelt é a mais feia da cidade. Construída em níveis, com passagens e estacionamento subterrâneos, a "praça" propriamente dita fica sobre uma imensa marquise que talvez tenha tentado simular sua prima do Ibirapuera. (clique nas imagens para ver detalhes)



A aridez do concreto, com uma ou outra árvore e muito mato, dá uma aparência decadente ao conjunto, como se para isso já não bastassem a sujeira, as pichações, os mendigos, o cheiro de fezes e urina, a fiação exposta, o concreto esboroando. Nada, mas nada mesmo, contribui para dar uma nota de beleza ao lugar, nem mesmo o "espelho d´água" formado pelas últimas chuvas e excelente criatório para Aedes aegypti e congêneres.



Uma rampa liga os níveis "sombra" e "sol", mas projetada de maneira tão mesquinha que nem dá uma nota de arrojo ou beleza arquitetônica. Os vasos e o montículo de areia não sei explicar: sobra de algum projeto belezura (sic) ou é uma obra de arte pós-moderna. Não sei e prefiro nem descobrir.


Não bastasse isso tudo, o lado voltado para a rua Nestor Pestana é fechado por uma verdadeira muralha de edifícios. O pouco que se salva da paisagem é o belíssimo prédio da Deutstche Eschule, a igreja da Consolação e o que restou do arvoredo da chácara de Dona Veridiana.



Já ia me esquecendo: toda aquela área, abrangendo ruas Augusta, Caio Prado, Avanhandava, enfim, quase 300 mil metros quadrados formavam a chácara de Dona Veridiana Prado até início do século XX. Ali, em 1896, foi construído o primeiro velódromo da cidade, graças ao empenho de seu neto Antonio Prado Jr, e ali também foram disputados os primeiros campeonatos paulistanos de futebol. Em 1884 a velha dama mudou-se para seu petit chateau em Higienópolis e a chácara tornou-se sede do Seminário das Educandas, sendo demolida na década de 1940.


Não poderia deixar de fora o - como dizer? - "centro de diversões adultas" Kilt, com sua arquitetura (sic) castelar e salteadores pendurados na fachada. Para usar de um chavão mui adequado à situação, no cenário da Praça Roosevelt o lupanar medieval é a cereja que coroa o bolo.



Ah, mas como sempre existe mais de uma nota surreal na vida, um operário retocava as feias grades verdes da praça (sic) como se isso fosse servir para melhorar a aparência do local. Coisa de alguma concorrência lucrativa de âmbito municipal...



Calma, não precisa brigar comigo... Não, não sou um crítico-ranzinza-e-pessimista... Não pensem também que só de coisas feias é feita a cidade. Existem lugares maravilhosos em Sampa, muitas vezes escondidos, fora do eixo Paulista - Jardins - Berrini.

Para provar isso e me redimir das críticas corrosivas o próximo artigo será sobre os tesouros da cidade.