domingo, novembro 05, 2006

Deleite das Feministas


Porcelana portuguesa, na família há meio século.

Você sabia?

Quando foi inaugurado, em 1891, havia pedágio no Viaduto do Chá. Fruto de uma sociedade anônima, os investidores precisavam obter retorno sobre o capital investido. Os paulistanos de então pagavam 60 réis para atravessá-lo e sentir a vertigem de olhar lá pra baixo, onde corria manso o Anhangabaú, por entre as plantações de chá da Baronesa de Itapetininga...

Você sabia?

Em 1930 Oswald de Andrade "casou-se" com Patrícia Galvão, a Pagu, defronte ao túmulo da família. Extremamente ligado à mãe, típico caso edipiano, Oswald queria a benção de Dona Ignez sobre essa nova união.

Boa Semana - Requiescat in Pace[1]

Quarta-feira foi dia de pagar uma série de promessas feitas sem o menor intuito de que fossem cumpridas. Sim, aquelas que adiamos para o dia de São Nunca. Ainda que no calendário religioso não exista dia consagrado ao santo tão invocado pelos caloteiros e demais biltres, dia 1º de novembro é o dia de Todos os Santos, numa tentativa de inclusão celestial daqueles que fazem parte do MSSC (Movimento dos Santos Sem Calendário). Portanto, daqui pra frente muito cuidado com as promessas que faz, e não invoque o santo em vão.

Nesses casos, o melhor é fazer como aquele Afonso Dias, bandeirante do século XVI, que em seu testamento deixa uma série de missas em prol de sua alma, e não esquece de encomendar “três missas a Santo Antonio e outra para o pai do Santo
[2]!!! Isso é que se chama apelo emocional: alguém já tinha pensado no pai de Santo Antonio? Muitos até devem achar que o santo nem pai tinha, coitado...

Bom,falando em mortos, não há como fugir ao dia consagrado àqueles que já deixaram a vida presente. Na televisão matérias sobre o movimento nos cemitérios, jornais e revistas com matérias sobre as curiosidades que existem nos campos santos da cidade. Foi então que decidi ciceronear a minha amiga
Kandoca para conhecer o mais antigo cemitério paulistano: o da Consolação. Fundado em 1858, fruto de uma generosa doação da Marquesa de Santos, ele tinha como intuito acabar com os enterros dentro das igrejas, costume muito antigo. Imaginem só: em três séculos de vida, os mortos da cidade espalhavam-se pelas igrejas existentes. Os enterros eram sempre feitos à noite; o caixão ou rede só servia para transportar o defunto, pois ele seria enterrado diretamente na terra. Para isso tiravam-se algumas tábuas do assoalho do tempo, cavava-se um pouco e lá ia o de cujus. Então socavam bem a terra com mão-de-pilão e tornavam a colocar o assoalho. Como naquela época não havia bancos nas igrejas, as mulheres assistiam às missas sentadas no chão. Imaginaram a encrenca? E o cheiro? Dos defuntos, não das mulheres.

Iam as coisas nesse pé, quando os vereadores da cidade decidiram abolir o velho e anti-higiênico costume. Largo do Arouche, morro do Chá, Luz, foram alguns os lugares sugeridos, mas venceu a idéia de um lugar bem afastado da cidade: o Caminho da Consolação, também conhecido por estrada de Sorocaba.

Eu poderia discorrer horas (ou caracteres) sobre o que vimos lá, contar histórias das famílias, descrever os mausoléus (o dos Matarazzo é o mais alto da América Latina, e ocupa área de 100 metros quadrados!), das obras de arte espalhadas.

Considerados pontos turísticos em diversos países, como Argentina e França, entre nós causa espanto a visita a um cemitério. Isso é coisa de góticos (que por sinal estavam por lá ontem, zanzando em pares ou sentados no memorial do Campos Salles) ou fanáticos da TFP
[3], que vão cultuar o túmulo do Plínio Correia de Oliveira.

Um túmulo destoa no meio de tanta grandiosidade: assemelha-se a uma urna, todo em granito negro, com letras metálicas: MONTEIRO LOBATO. Nas laterais, discretamente, vêem-se escritos na própria pedra mais alguns nomes: Purezinha, Edgar, Guilherme, Ruth e Martha
[4]. Não, não vou dizer que estão todos novamente reunidos ali. Não naquela caixa de pedra, onde só existem nomes e algumas flores que parentes e amigos deixaram. Na verdade eles estão longe dali, estão lá na fazenda do Buquira, no Vale do Paraíba, junto com a Tia Anastácia e seu marido Esaú, olhando o sol que se põe por detrás da Mantiqueira.

E para “matar” o assunto, deixo a frase sobre a curiosidade que tinha Lobato acerca da morte, para que cada um tire sua conclusão: “Será a morte vírgula, ponto e vírgula ou ponto final”?

Boa Semana!



[1] Do latim, “réquiem scat in pace”, significa Descanse em Paz. Sua abreviação- RIP – também era muito utilizada.
[2] Vida e Morte do Bandeirante. MACHADO, Alcântara. Martins, 1961
[3] Tradição, Família e Propriedade, organização de extrema direita, cujo fundador está enterrado no cemitério da Consolação.Todos os dias afluem seguidores de suas idéias para rezar e velar por seu túmulo.
[4] Purezinha, esposa de Lobato, faleceu em 1959. Seus filhos Edgar em 1942, Guilherme em 1939, Ruth em 1972 e Martha, a mais velha, em 2004.

domingo, outubro 29, 2006

As pessoas de minha vida

Recentemente foi veiculado um comercial onde um camarada aparentando seus trinta anos vem andando pela rua acompanhado por uma fauna variada de personagens. A todo instante ele é abordado por alguém: crianças com uniforme escolar, uma babá, um mágico, palhaços, um grupo de meninos com uma bola de futebol, o Fofão, duas coelhinhas da Playboy, o boneco da Michelin, e por aí vai. Num determinando momento, ele pára na esquina, diante de um belo automóvel. Então se volta para trás, e não vê mais ninguém. Surge o slogan da campanha: “Sua vida trouxe você até aqui”, e dizem o nome do novo carro que vai levá-lo daqui por diante.

Pois bem, esse comercial ficou martelando em minha cabeça, e vê-lo numa revista só fez por deixá-lo mais vivo e aumentar seu encanto para mim. No domingo passado, enquanto atinava como usá-lo no Boa Semana, acabei tendo a atenção voltada para um caso curioso que passou na TV.

Um norte-americano de 55 anos descobriu que tinha três tumores malignos no cérebro, e sua expectativa de vida era de alguns meses. A princípio desesperado, ficou pensando no que seria de sua filha, uma jovem adolescente. Começou a rever seus passos, e deparou-se lembrando das pessoas que haviam passado por sua vida. Surpreendeu-se ao se deparar com o número mil. Mas não parou por aí.

Através de amigos em comum, pesquisas em listas telefônicas, consultas a antigos colégios e empresas, começou a buscar essas pessoas. Ligava para elas marcando um encontro no Central Park e ali dizia que vinha para se despedir, mas antes queria agradecer a importância daquela pessoa em determinado momento de sua vida.

Começou a escrever um diário narrando esses encontros, diário que seria a sua herança para a filha. O último capítulo, pediu à esposa que o escrevesse. O diário acabou virando livro (depois coloco o nome, prometo).

Ora, juntei o comercial do carro com a história do americano, e aí tinha os ingredientes para escrever a crônica dominical. Mas texto é que nem massa de pão caseiro: se o tempo não estiver bom, não cresce. Foi o que aconteceu: a idéia embatumou, para usar o vocabulário de minha mãe ao deparar-se com aquela massa pesada.

Passei toda a semana com isso na cabeça, e prometi a mim mesmo que hoje escreveria. Pois aí está. Não coloco nenhum comentário ou “moral da história”. Apenas conto o que vi e ouvi, pra cada um pensar. Não vou dizer que já comecei a revirar os arquivos da memória em busca de tantas e tantas pessoas que passaram por minha vida, e que são importantes. Sim, ainda são, pois se não estão mais presentes fisicamente, de alguma forma elas permanecem em mim, ainda que no subconsciente.

Deparei-me com lembranças curiosas: a dona Vicentina, que fazia um inesquecível doce de casca de laranja seleta, ou do João do Saco, andarilho que metia medo em nós, crianças, mas que era tão inofensivo. Ou do velho Angel, amigo de meu avô, sempre de chapéu preto e guarda-chuva. E aquela menina loira, filha do verdureiro, cujo nome não me lembro, mas que tanto amei nos meus 13 anos... Tantas pessoas, tantas histórias...

Pensem vocês nas pessoas que passaram em suas vidas, e prestem atenção no seguinte: aquelas que nos parecem hoje menos importantes também deixaram sua marcas.

Boa Semana!!!