sexta-feira, setembro 04, 2009

Loucura ou sonho: a história esquecida de Monteiro Lobato



Monteiro Lobato é particularmente associado à literatura infantil, já que graças a ela se tornou o escritor querido e conhecido de gerações de brasileiros. Entretanto, o rótulo de “escritor das crianças” encobriu inúmeros aspectos interessantes e instigantes da vida desse homem de mil facetas, que serão o foco dessa exposição.

A convite da livraria Capítulo 4, o colecionador Ricardo Ferreira expõe parte de sua Lobatiana, formada por centenas de livros ligados ao escritor que ajudam a revelar um pouco mais de nossa história e cultura. Ao lado de um painel contando um pouco da história desse brasileiro singular, estarão expostos livros raros, primeiras edições e traduções da obra lobatiana.

A Capítulo 4, a livraria que São Paulo merece, apóia essa iniciativa e tornou possível a realização dessa exposição.

Fazendo da qualidade de vida o seu tema e o seu foco, é um espaço de encontro entre o leitor e o livro, com a qualidade e o conforto que só as melhores livrarias do mundo têm. Tudo isso, mais um saboroso café em ambiente aconchegante, faz da Capítulo 4 um lugar criado especialmente para você.

Contação de histórias: Sábados, dias 03 e 10 de outubro, e Domingo, dia 11 de outubro, às 15h.

Loucura ou sonho: a história esquecida de Monteiro Lobato.
De 02 a 18 de outubro de 2009
Abertura: 02 de outubro, às 19h
Visitas programadas para escolas

Rua Tabapuã, 830 Itaim Bibi
Fones: 2737 2037 / 2737 2038

segunda-feira, julho 06, 2009

Maicol morreu!

Esse cara morreu com atraso de 30 anos.”

Pedro Sanchez, 90, chauffeur aposentado e filósofo amador


Existe um velho ditado que diz que sogro rico e porco gordo só dão lucro depois que morrem. Pois foi o que me veio à idéia ao ver as recentes notícias sobre a morte de Michael Jackson: suas vendas post-mortem superaram as de Elvis e Lennon. E muita gente achando que os organizadores dos shows cancelados iriam ter prejuízo por ressarcir os fãs: o que se viu foi muita gente se recusando a ser reembolsado, mantendo o ingresso como suvenir. Não bastasse, li que todos os ensaios haviam sido filmados e breve serão lançados em DVD; logo, os organizadores não devem amargar tanto prejuízo. No momento em que escrevo, 17 mil ingressos se esgotaram para o velório, coisa que sempre atrai as grandes massas em se tratando de gente famosa. Gratuitos, os ingressos já começam a ser leiloados em sites como o E-bay, por valores que começam em 500 dólares. Sogro rico e porco gordo...


Não sou fã de Michael Jackson, mas seria hipocrisia minha dizer que era indiferente à sua figura: não fosse eu um trintão cuja infância e adolescência percorreram os célebres anos 80, ultimamente tão festejados em livros que resgatam seus maiores símbolos e modismos (quase todos, pelo olhar de hoje, condenáveis). Se nunca arrisquei o Moonwalk? Ou se não curti alguma fossa ouvindo Ben? Claro que sim, e não vou negar isso agora, do mesmo modo que não faço coro aos “órfãos” de Michael, gente que mal e mal o conhecia, mas que agora é amigo de infância, coisa que aliás sói acontecer com muita coisa (quanta gente pouco anos mais velha que eu e que jura ter “vivido os anos de chumbo! Só se foi na creche, com as inspetoras escolares). E parafraseando Juca-Pirama, meninos eu vi Michael Jackson preto! (Sim, nos anos 80 dizíamos preto e não corretamente como hoje afro-descendente).


Óbvio que ao assistir à cobertura na TV me veio à mente um monte de recordações daquele tempo, mas a mais marcante ( e ridícula) era usarmos meias brancas com sapatos pretos e logo receber o apelido de Michael Jackson. Falando em apelido, quantas crianças tiveram seu nome inspirado pelo astro pop? Digo inspirado porque a maioria era corruptela: Maicol, Maicon, Mikel, Maiquel, Maickel e por aí afora.


Ainda Maicol


Curioso que na mesma semana da morte do “rei do pop”, com a exibição ad nauseum de Thriller e similares, uma cena ironicamente cruel me chamou a atenção. Num dos intervalos em que se debatia com quem ficariam os filhos (?) ou qual o montante da dívida do Peter Pan alvejado (alvejado no sentido de clareamento), acharam espaço para uma matéria sobre a Cracolândia paulistana (área do centro onde vivem centenas de viciados em crack). A fotografia abaixo tem uma macabra similaridade com o famoso clipe de Michael Jackson, apenas com a leve diferença de que em São Paulo é real o desfile de zumbis em plena luz do dia.


Alguém já disse que a vida imita a arte?


Imagem: Paulo Pinto, AE, in Cadê a polícia?

segunda-feira, abril 27, 2009

Envelhecer

Já é chavão de que começamos a envelhecer assim que nascemos, o que não deixa de ser verdade. Os 33 anos poderia dizer que sou um homem de meia idade, mas pelo histórico familiar acho mais coerente fazer isso por volta dos 45, já que a expectativa de vida dos meus velhos bate a casa dos noventa.

Conviver com pessoas que tem o dobro ou o triplo de sua idade não é algo "tranquilo e sereno"; por mais que alguns deles acompanhem a evolução do mundo, como seres humanos têm suas idiossincrasias, suas neuras e algo que se reforça com o passar dos anos: a teimosia.

Lavar quintal à noite, tirar cortinas, subir no telhado pra resolver uma goteira, carregar sobras de material de construção, tudo isso que é prosaico na minha idade, para eles é um risco em potencial. O grande problema é que ainda são hiperativos, mais na cabeça do que no corpo, que acaba padecendo mais.

Outro lugar-comum, de que o velho volta a ser criança. Verdade. Toda criança ao descobrir o mundo começa a testar limites, saber a reação dos pais, o que pode e o que não pode, e quais as consequências de transigir. Com a idade as pessoas voltam a ter essa atitude, e ao serem pilhadas têm a mesma reação de uma criança: rir da reinação.

Imagine uma senhora de 90 anos modificando a decoração da casa, arrastando daqui pra ali móveis, sofás, uma mesinha de canto, etc. Às vezes até mente, dizendo que foi ajudada por sicrano ou beltrano, mas quando confessa é num misto de orgulho e sarcasmo: "Imagina, fui arrastando devagarinho..."

O célebre tio Adelino, ao ser chamado de velho, invariavelmente respondia: "Calma que tu pra lá vais", e isso hoje é bordão familiar. Quem não quer envelhecer, que morra jovem.

Por mais que se diga o contrário, hoje vejo que a velhice é triste. Ver o corpo decair, não poder fazer coisas prosaicas como calçar o sapato ou trocar uma lâmpada são frustrantes. Triste, sim, e só quem convive é que sabe.

Mas em toda essa história existe um lado belo, e cada vez mais raro: o saber envelhecer. Poder se reconhecer mesmo com todo o trabalho implacável do tempo. Aceitar cada ruga, cada fio branco, não como uma sentença de morte e sim como um pouco mais de experiência, de conhecimento, de vida, enfim.

Claro que esse palavrório todo foi aperitivo para as imagens a seguir, de pessoas que tem problema em aceitar que os anos passam:


Leila Lopes, atriz: ao surgir na TV e anos depois, ao virar estrela pornô.



Mickey Rourke e Kim Bassinger: sem comentários.


Tia Cyla, a0s 18 e aos 92 anos, apenas com intervenção do tempo.

Boa semana!

segunda-feira, março 02, 2009

Roteiro dos Bandeirantes

Já de há muito que estávamos combinando essa excursão até Itu, dona Letícia e eu, mas sempre adiando. Vai que, num rompante de ressaca pós-Carnaval, decidimos cumprir o tão combinado e tantas vezes adiado passeio. A despeito do calor senegalês, enfunamos o peito e talqualmente Anhangueras modernos, seguimos pelo sertão afora.


O ponto de partida foi esta venerável Santana de Parnaíba, cognominada quatrocentorgulhosamente Berço dos Bandeirantes. O motivo: durante os séculos XVI e XVII a vila de Parnaíba chegou a ser mais importante que a de São Paulo, tornando-se ponto de partida de inúmeras expedições rumo ao sertão, as famosas "bandeiras". Atualmente a cidade é o ponto de partida para o Roteiro dos Bandeirantes.

Seguimos pela Estrada dos Romeiros, o antigo caminho que demandava Itu. Essa estrada, serpenteando pela serra, vai acompanhando o rio Tietê desde as várzeas por onde ele segue tranquilo e preguiçoso até chegar nas corredeiras e pequenas quedas, que culminam no Salto, na cidade desse nome, pouco além de Itu.

Quem vê o rio que passa em São Paulo dificilmente acredita que ele é o mesmo das fotos a seguir, tiradas do trecho onde, em agosto de 1923, parou a expedição do então governador Washington Luis rumo à Itu. Ainda existe uma placa alusiva, incrivelmente poupada pelos vândalos que pululam no mundo.

Pouco mais de 60 quilômetros da capital e o velho rio começa a esboçar sinais de renascimento, ajudado pela belíssima paisagem com trechos de majestosa mata Atlântica.




Trechos da Estrada Parque

Cerca de duas léguas de Itu está a fazenda da Serra, mais conhecida por Fazenda do Chocolate (esse é seu principal produto). Reza a história que pertenceu à Domingos Fernandes, fundador de Itu, irmão de André (fundador de Parnaíba) e Baltazar (fundador de Sorocaba), todos filhos da matrona Suzana Dias. A fazenda em questão está muito bem conservada, mantendo a sede seiscentista, a casa de farinha, os currais e alguns equipamentos como moenda, a velhíssima roda d´água e uma prensa.


Fazenda da Serra

Venda de artesanato, passeio à cavalo, visita aos pequenos animais, tudo isso atrai centenas de visitantes, mormente num domingo ensolarado como o de ontem.


Passeios a cavalo e pequenos animais atraem os visitantes

Itu sempre foi cidade importante na história e economia paulista, mas não espere achar aqui um tratado sobre isso. Só vou dizer que no ciclo do açúcar foi um dos mais importantes produtores. Aqui tiveram origem diversas famílias de relevo, como os Paes de Barros e os Pacheco e Silva. Por sua lealdade ao Imperador, foi agraciada em 1823 com o título de Fidelíssima. Em 1873, no sobrado de Carlos Almeida Prado, foi realizada a Convenção Republicana.




Centro de Itu - Sobrados e Matriz da Candelária

Mas tudo isso ficou meio de lado depois dos anos 60, quando na televisão o comediante Simplício, representando um caipira cheio de bazófia, vivia desfiando as grandezas de sua Itu natal. Daí foi um passo para a cidade ficar conhecida como "das coisas grandes", e tome orelhão gigante, semáforo gigante, cotonete gigante...
Aspecto de uma sala do Museu da Energia


Bonita, bem cuidada, Itu é uma estância turística que atraí muitos visitantes que nunca saem de lá decepcionados. Pena - ou sorte, sei lá - que a maioria prefere a comodidade das grandes rodovias, deixando de lado a bela estrada velha, a Estrada Parque, de tantas belezas e histórias.

Saguão superior do sobrado do Barão de Itu (Bento Paes de Barros)

Boa semana e conheçam o roteiro dos Bandeirantes.

Na imagem abaixo, ao fundo da sala, madame Lets em seu momento Baronesa de Itu.

Quer mais? Veja também
Monumento aos Bandeirantes
Roteiro dos Bandeirantes

domingo, janeiro 04, 2009

Penacho

Página de rosto da primeira edição de Idéias de Jeca Tatu (Coleção Ricardo Ferreira)

Em algum lugar li que panache quer dizer orgulho, mas estou com preguiça de ir procurar. Sei que nesse lugar também descobri que a palavra foi aportuguesada para penacho. Reclamações, por obséquio, devem ser encaminhadas para a redação, seção "Erramos".

Pois é esse penacho que me impede de acatar a nova reforma ortográfica, dizendo que devo tirar tais e quais acentos e dobrar letras. Trema eu já não usava há muito tempo, exceto em palavras estrangeiras que o pedissem por conta de sua raiz etimológica. Agora querer que eu tire o acento de minhas idéias?

Por isso que fiquei bravo com minha querida Kandoca, que se diz "cidadã que respeita as leis". Ah, minha cara, você não sabe as delícias de ser um fora-da-lei (sim, com hífens e não me venham com regras).

Será que já não basta ter que cotidianamente lidar com regras e normas gramaticais, ainda no teu espaço, onde escreves o que te vai na alma, seguir o que meia dúzia de carranças inventaram? Você mesma me disse que os pais da língua não chegam a um acordo,que inventam mil etecéteras pra disfarçar a própria incapacidade de consenso.

Fiquei muito chateado ao ler o novo frontispício "Ideias na janela". Isso me fez pensar que sempre me enganei com tudo que li de sua lavra. Logo eu, que sempre alardeei aos quatro ventos a tua autenticidade e sinceridade, pelas inúmeras vezes em que (pensava eu) abriu seu coração pra nós, seu leitores. Agora, por conta de uns patetas, vc pára de escrever suas idéias? Não é por conta de um acento que vou descrer do seu talento, da sua incrível capacidade de expressar seus pensamentos com poesia, lirismo, beleza.

Não, não aceite isso. Não é uma azaléia acentuada que nos separa de África ou Portugal; o que nos separa é esse imenso abismo cavado pela ignorância, pela nossa macaquice de imitar tudo o que vem de fora, macaquice sim, que não analisa e incorpora só o que há de bom em outras culturas. Macaquice pura e simples, que nos leva vestir a roupagem que vemos no vizinho, a "falar inglês" ridiculamente em sale, print, insigth, brainstorm, nigth e outras abobrinhas como se não tivéssemos palavras pra expressar isso. Macaquice que também vai ao outro extremo, dos pais da pátria, idiotas que escrevem pitiça no lugar de pizza, muçarela ao invés de mozzarela, por que os carranças disseram que assim é que é. Panetone, patriotas, como é que se escreve? Pão de tom? Ah, que beleza!

Ora, pro inferno! Vamos então deixar de falar bunda, palavra africana pra indicar o fim das costas, e dizer cu, como diziam meus avós portugueses? E como lerei Eça de Queiróz, com suas chávenas e lumes? Ora, se ele diz uma chávena de chá, só sendo muito estúpido pra não entender que aquilo quer dizer uma xícara de chá. Se leio que o lume da lareira iluminava a sala, lá vou pensar que lume significa gato ou cadeira? E nunca pensaste, amigo leitor, de onde viriam iluminado ou vagalume?

Sobre esse assunto fico com Lobato, que sempre criticou essas reformas inócuas, e com Érico Veríssimo, que dizia que as pessoas se chocavam mais ao ler ou ouvir a palavra puta do que saber o que era isso. Perguntava se riscando do dicionário essa palavrinha de quatro letras estaria extinta a prostituição.

Kandoca, não leve isto como polêmica, por favor, mas atenda meu pedido e volte atrás: acentue suas idéias ou com minha inabilidade de intelecção vou achar que estou lendo José Sarney!

Penhacho, penacho!!!

sábado, outubro 04, 2008

Cena da roça



A chuva da manhã trouxe consigo as nuvens que acinzentaram o dia e um mormaço que deixa a gente sem vontade de fazer nada, numa preguiça boa. Pois foi dessa preguiça sonolenta que o barulho incomum da passarada e um zumzum no galinheiro vieram me tirar.

Estico os braços, suspiro e vou até a varanda dar uma espiada no que acontecia; não levou muito tempo pra que descobrisse o motivo de tamanho alvoroço entre os bichos de pena: era revoada de içá. O leitor urbano ficou na mesma, mas calma lá que eu esclareço.

Içás são as jovens formigas aladas que nessa época saem em revoada em busca de lugares para criar novas colônias. Nos dia de içá é grande o alvoroço entre os bípedes plumados e, em alguns lugares, dos bípedes sem pena também: é que içá torrado é uma iguaria apreciadíssima em certas regiões brasileiras, notadamente no entorno do vale do Paraíba. Ainda hoje é possível ver gente de latinha ou vidro nas mãos em busca do olheiro de onde saem as formigas voadoras. Por essas e outras bem diz o povo que "quando quer se perder, formiga cria asas". Lobato mesmo foi um grande apreciador de içá torrado, que os amigos mandavam de Taubaté para ele.

Fui ao quintal e vi que a galinhada estava em polvorosa com os içás que caíam no galinheiro, mas de olho comprido nas outras que vagavam pelo gramado. Abri a porta do galinheiro e foi aquela festa: voavam ou saltavam de pescoços espichados pegando as formigas em pleno vôo, ou saíam em desabalada carreira com as asas abertas.

Andorinhas em rasantes riscavam o céu como pequenos filetes negros; um bem-te-vi enchia o papo executando piruetas no céu. Achei um olheiro que parecia um bico de chaleira em ebulição: centenas de milhares de içás testavam as asas pela primeira vez. Com um quit-quit chamei a galinhada, e foi um banquete: brigavam como doidas diante de tanta fartura.

Muitas vezes tenho dó de matar esses insetos tão organizados e trabalhadores, mas quando vejo o marmeleiro tosado ou a mexeriqueira de galhos nus me vêm ímpetos hitlerianos, e lá me vou atrás do formigueiro, com a bomba de Pika Pau nas mãos. Já está novamente o raro leitor de cara torcida, sem entender o que escrevi, e pensando em procurar algo melhor para ler. Mas se continuou, lá vai a explicação: Pika Pau é uma famosa marca de formicida em pó, que através de uma bomba inalamos (não é essa a palavra correta, bem sei, mas foi a que melhor calhou) no formigueiro.

A noite, que estava à espreita por detrás do morro, aproveitou que o sol começou a se esconder e veio surgindo de mansinho. Uma estrela aqui, uma sombra ali, a passarada foi sumindo, o galo buscou seu poleiro e só algum pinto tresmalhado piava aflito em busca da mãe.

A brisa que sacudiu o arvoredo também aliviou o mormaço; o céu já perdia todas as cores, tornando-se azul escuro, e com alguma estrela surgindo no meios das nuvens esfiapadas.

Foi-se o dia, veio a noite. Mais uma noite da roça.




quarta-feira, outubro 01, 2008

A arte de comer bem

Estou restaurando um livro de receitas de 1939, intitulado 'A arte de comer bem', de autoria de uma certa Rosa Maria.

Fora o fato do livro chegar até mim em estado lastimável, pelo uso que teve, o que me chamou a atenção foi o conteúdo deveras interessante.

Resumindo: o livro foi escrito por uma "mãe", com dicas e receitas para a "filha"; daí encontrarmos desde como colocar a mesa, passando por escolha da criadagem, até sugestões de jantares informais, ceias íntimas, chás da tarde, etc, etc.

Durante a limpeza e desmontagem dos cadernos não tem como deixar de ler certos trechos, daí eu ter selecionado alguns, que seguem nas fotografias abaixo.

Ainda que eu tenha achado muita frescura, não posso negar uma coisa: as pessoas valorizavam a educação e a cordialidade. Atraso era algo imperdoável, coisa que hoje é normalíssimo. Estranho é ser pontual. Ceder a vez à damas, respeitar os mais velhos, tudo isso foi-se embora, já que vivemos numa era pop. Concordo que naqueles tempos havia muita hipocrisia, muita coisa de fachada, claro, mas educação, como bem diz minha avó, não ocupa espaço e nunca é demais.

Olhem as atribuições da dona da casa:


Faz-me rir:


Gostei da "delicadeza" no preparo (hehehe):


E tem gente que reclama da sujeira dos pombos, sem pensar no seu valor nutritivo:


O tatu, ao lado da tartaruga, já vem com panela própria...


Bom apetite e boa semana.

quinta-feira, setembro 04, 2008

O poço do Visconde




Com esse oba-oba em cima das novas descobertas de petróleo, o nome de Monteiro Lobato sempre vem à baila, na maior parte das vezes de modo equivocado e superficial.

A última foi da Dona Dilma, que disse que o Brasil descobriu "petróleo atrás do galinheiro", numa referência ao Sítio de Dona Benta.

No livro "O poço do Visconde", publicado em 1937, Lobato mostra o sabuguinho como sumidade em petróleo e graças ao faz-de-conta da Emília é fundada a Cia. Donabentense de Petróleos.

Claro que o ilustre Visconde estava certo e o petróleo jorra no pastinho da vaca Mocha (não no galinheiro), trazendo riqueza e prosperidade, isso porque a sabedoria de Dona Benta aplica corretamente o lucro obtido com as perfurações.

É um livro escrito pra crianças, mas com assunto que interessa à gente grande. Vale a pena ler.

As fotos que ilustram este post são do meu exemplar da segunda edição, com as magníficas ilustrações do Belmonte. Dona Benta a guiar o automóvel é uma das melhores imagens, apesar de não condizer com o texto: na verdade o chofer oficial era Pedrinho.




Imagens: http://picasaweb.google.com.br/urupes1

terça-feira, setembro 02, 2008

Incrível

Já vi muita coisa nessa vida, mas uma relação tão bonita e confiante como a desse filminho, jamais: um menininho de seus dois anos e pico, talvez, e um enorme e pachorrento labrador convivem mais que pacificamente - a palavra é amorosamente.

Num mundo em que pais matam filhos, é reconfortante ver que o instinto se sobrepõe à normas morais ou arquétipos do que é família.

Família é mesmo o instinto de preservação ancestral.

Três minutinhos só, vale a pena.


domingo, agosto 31, 2008

Lobato

Estes vídeos foram feitos para a Semana Monteiro Lobato, na Livraria da Unesp, quando meus livros foram expostos.

O primeiro mostra a praça da Sé em diversos períodos. Foi ali que Lobato teve o escritório de sua editora entre 1924 e 25.



O segundo mostra alguns livros infantis com a saga do Picapau Amarelo, e os diversos ilustradores através dos tempos.




O último mostra alguns exemplares de minha famosa Lobatiana.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Minhas outras vidas


Meu lado afro que morreu no Vietnã.


Com sérios problemas de identidade sexual em 76.


Minha vida nos anos 80 como inventor de um software que me tornou biliardário.


Eu era bicheiro e tinha um opalão no fim dos anos 70!


Black power!


Eu, empresário bem sucedido em 1972.


Como gerente do Banco do Brasil em 64.


Como galã da TV Tupi, em 1956.


Como crooner de orquestra nos anos 50.


Professor universitário em 74.

Copiei da Letícia, que descobriu graças à Tia Cris.

Gostou? Faça suas "regressões": Yearbook yourself

terça-feira, agosto 12, 2008

Nota aos leitores

Vocês sabem o quanto eu gosto de livros antigos, não é à toa que abracei a profissão de restaurador e encadernador depois de velho.

Cada livro nos reserva uma surpresa, um bilhete perdido, uma pétala ressequida, uma anotação à margem. Fosse eu contar a história de alguns deles e teria matéria para vários posts.

Mas é que acabo de receber um livro pelo correio, vindo lá do Rio Grande do Sul, tchê, e não segurei a risada ao ler a nota ao final da obra. Tal qual a eterna rixa entre cão e gato, gavião e pomba, Clodovil e a humanidade, entre escritor e revisor também há uma eterna má vontade, esquecidos que um não existiria sem o outro.

Existem histórias lendárias sobre atritos, erros célebres, coisas curiosas. Conheço revisores que na verdade são melhores que os autores, e acabam por reescrever a obra, do mesmo modo que há autores que nem precisariam que seus textos passassem por revisão. Enfim...

Aqui o autor usa de leve ironia (pelo menos foi essa minha interpretação), pois diz que houve esmero na revisão, mas que mesmo assim alguns gatos escapuliram.

De qualquer modo deixo a imagem da nota para que vocês se divirtam; no fundo achei graça no fato do autor admitir seus erros e pedir desculpas ao distinto público. Hoje em dia, infelizmente, temos que engolir os erros sem a menor dose de humildade.



Ah, foi retirado do livro Compendio de Psychologia, de Henrique Geenen, editado em 1925 pela Cia. Graphico-editora Monteiro Lobato, Praça da Sé, 34 - São Paulo.

Boa semana, e este texto NÃO foi revisado.

domingo, julho 06, 2008

As baronesas de Piracicaba

Em descarada carona no assunto do Flanela, eu também resolvi postar algumas imagens e tecer meus comentários sobre nossa (Madame Letícia e eu) excursão sociológica no mundo do consumo de luxo em São Paulo.

Mas mérito a quem tem: o fato de toda a fiação ser subterrânea na rua Oscar Freire confere um ar de civilização sem par. Para quem, como eu, gosta de fotografar - mesmo sem o menor talento - a ausência daquele emaranhado de cabos é uma grata surpresa. Vejam as imagens abaixo: o belíssimo sobrado na esquina da Franca com Haddock Lobo, e uma panorâmica da Oscar Freire, no cruzamento com a Augusta.




Claro que nesse passeio diversas pérolas se nos depararam aos globos oculares. Graças à Lei Cidade Limpa centenas de fachadas e marquises foram postas abaixo e, tal-qual muitas das senhouuuras que vi flanando pelos arredores, mostraram o que havia por baixo da maquilage.



Em outro extremo, para ficar up-to-date é preciso muita textura e neocrááássico na fachada. Proporção? Simetria? Besteiras...



Considerado um dos templos do luxo na cidade, o restaurante Fasano tentou encobrir a vizinhança plebéia numa legítima - e bela - fachada neoclássica, com direito à hera e tudo o mais. Pena que ficou na fachada, como mostram as falsas janelas em ambas extremidades...



Mas para coroar nossa expedição, um belo exemplo de cidadania e respeito às leis: o cidadão estaciona seu bólido bem diante da saída do caixa automático - com notável guia rebaixada.



Vemos na imagem um dos motoristas barrados com ar de impotência diante da cena. Dentro do carro imediato uma simpática jovem (sim, caros leitores, reparei muito bem na moçoila) levava as mãos à linda cabecinha, inconformada com a situação.

Mas para encerrar esta modesta porém sincera reportagem investigativa e - por quê não? - denunciativa, um outro ângulo da simpática família que atravessava Óxxxcarr Frrreirrre alheia às tendências da moda... nos últimos 60 anos.



Boa semana!

PS: não concordo em absoluto com o título pejorativo de "Piracicabas", mesmo porque a local de origem não tem nada a ver com atos de cafonice e peruíce do
cerumano. Quem me conhece sabe que eu sou do interiorrrrr.