Mostrando postagens com marcador comportamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comportamento. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, abril 27, 2009

Envelhecer

Já é chavão de que começamos a envelhecer assim que nascemos, o que não deixa de ser verdade. Os 33 anos poderia dizer que sou um homem de meia idade, mas pelo histórico familiar acho mais coerente fazer isso por volta dos 45, já que a expectativa de vida dos meus velhos bate a casa dos noventa.

Conviver com pessoas que tem o dobro ou o triplo de sua idade não é algo "tranquilo e sereno"; por mais que alguns deles acompanhem a evolução do mundo, como seres humanos têm suas idiossincrasias, suas neuras e algo que se reforça com o passar dos anos: a teimosia.

Lavar quintal à noite, tirar cortinas, subir no telhado pra resolver uma goteira, carregar sobras de material de construção, tudo isso que é prosaico na minha idade, para eles é um risco em potencial. O grande problema é que ainda são hiperativos, mais na cabeça do que no corpo, que acaba padecendo mais.

Outro lugar-comum, de que o velho volta a ser criança. Verdade. Toda criança ao descobrir o mundo começa a testar limites, saber a reação dos pais, o que pode e o que não pode, e quais as consequências de transigir. Com a idade as pessoas voltam a ter essa atitude, e ao serem pilhadas têm a mesma reação de uma criança: rir da reinação.

Imagine uma senhora de 90 anos modificando a decoração da casa, arrastando daqui pra ali móveis, sofás, uma mesinha de canto, etc. Às vezes até mente, dizendo que foi ajudada por sicrano ou beltrano, mas quando confessa é num misto de orgulho e sarcasmo: "Imagina, fui arrastando devagarinho..."

O célebre tio Adelino, ao ser chamado de velho, invariavelmente respondia: "Calma que tu pra lá vais", e isso hoje é bordão familiar. Quem não quer envelhecer, que morra jovem.

Por mais que se diga o contrário, hoje vejo que a velhice é triste. Ver o corpo decair, não poder fazer coisas prosaicas como calçar o sapato ou trocar uma lâmpada são frustrantes. Triste, sim, e só quem convive é que sabe.

Mas em toda essa história existe um lado belo, e cada vez mais raro: o saber envelhecer. Poder se reconhecer mesmo com todo o trabalho implacável do tempo. Aceitar cada ruga, cada fio branco, não como uma sentença de morte e sim como um pouco mais de experiência, de conhecimento, de vida, enfim.

Claro que esse palavrório todo foi aperitivo para as imagens a seguir, de pessoas que tem problema em aceitar que os anos passam:


Leila Lopes, atriz: ao surgir na TV e anos depois, ao virar estrela pornô.



Mickey Rourke e Kim Bassinger: sem comentários.


Tia Cyla, a0s 18 e aos 92 anos, apenas com intervenção do tempo.

Boa semana!

domingo, janeiro 04, 2009

Penacho

Página de rosto da primeira edição de Idéias de Jeca Tatu (Coleção Ricardo Ferreira)

Em algum lugar li que panache quer dizer orgulho, mas estou com preguiça de ir procurar. Sei que nesse lugar também descobri que a palavra foi aportuguesada para penacho. Reclamações, por obséquio, devem ser encaminhadas para a redação, seção "Erramos".

Pois é esse penacho que me impede de acatar a nova reforma ortográfica, dizendo que devo tirar tais e quais acentos e dobrar letras. Trema eu já não usava há muito tempo, exceto em palavras estrangeiras que o pedissem por conta de sua raiz etimológica. Agora querer que eu tire o acento de minhas idéias?

Por isso que fiquei bravo com minha querida Kandoca, que se diz "cidadã que respeita as leis". Ah, minha cara, você não sabe as delícias de ser um fora-da-lei (sim, com hífens e não me venham com regras).

Será que já não basta ter que cotidianamente lidar com regras e normas gramaticais, ainda no teu espaço, onde escreves o que te vai na alma, seguir o que meia dúzia de carranças inventaram? Você mesma me disse que os pais da língua não chegam a um acordo,que inventam mil etecéteras pra disfarçar a própria incapacidade de consenso.

Fiquei muito chateado ao ler o novo frontispício "Ideias na janela". Isso me fez pensar que sempre me enganei com tudo que li de sua lavra. Logo eu, que sempre alardeei aos quatro ventos a tua autenticidade e sinceridade, pelas inúmeras vezes em que (pensava eu) abriu seu coração pra nós, seu leitores. Agora, por conta de uns patetas, vc pára de escrever suas idéias? Não é por conta de um acento que vou descrer do seu talento, da sua incrível capacidade de expressar seus pensamentos com poesia, lirismo, beleza.

Não, não aceite isso. Não é uma azaléia acentuada que nos separa de África ou Portugal; o que nos separa é esse imenso abismo cavado pela ignorância, pela nossa macaquice de imitar tudo o que vem de fora, macaquice sim, que não analisa e incorpora só o que há de bom em outras culturas. Macaquice pura e simples, que nos leva vestir a roupagem que vemos no vizinho, a "falar inglês" ridiculamente em sale, print, insigth, brainstorm, nigth e outras abobrinhas como se não tivéssemos palavras pra expressar isso. Macaquice que também vai ao outro extremo, dos pais da pátria, idiotas que escrevem pitiça no lugar de pizza, muçarela ao invés de mozzarela, por que os carranças disseram que assim é que é. Panetone, patriotas, como é que se escreve? Pão de tom? Ah, que beleza!

Ora, pro inferno! Vamos então deixar de falar bunda, palavra africana pra indicar o fim das costas, e dizer cu, como diziam meus avós portugueses? E como lerei Eça de Queiróz, com suas chávenas e lumes? Ora, se ele diz uma chávena de chá, só sendo muito estúpido pra não entender que aquilo quer dizer uma xícara de chá. Se leio que o lume da lareira iluminava a sala, lá vou pensar que lume significa gato ou cadeira? E nunca pensaste, amigo leitor, de onde viriam iluminado ou vagalume?

Sobre esse assunto fico com Lobato, que sempre criticou essas reformas inócuas, e com Érico Veríssimo, que dizia que as pessoas se chocavam mais ao ler ou ouvir a palavra puta do que saber o que era isso. Perguntava se riscando do dicionário essa palavrinha de quatro letras estaria extinta a prostituição.

Kandoca, não leve isto como polêmica, por favor, mas atenda meu pedido e volte atrás: acentue suas idéias ou com minha inabilidade de intelecção vou achar que estou lendo José Sarney!

Penhacho, penacho!!!

quarta-feira, outubro 01, 2008

A arte de comer bem

Estou restaurando um livro de receitas de 1939, intitulado 'A arte de comer bem', de autoria de uma certa Rosa Maria.

Fora o fato do livro chegar até mim em estado lastimável, pelo uso que teve, o que me chamou a atenção foi o conteúdo deveras interessante.

Resumindo: o livro foi escrito por uma "mãe", com dicas e receitas para a "filha"; daí encontrarmos desde como colocar a mesa, passando por escolha da criadagem, até sugestões de jantares informais, ceias íntimas, chás da tarde, etc, etc.

Durante a limpeza e desmontagem dos cadernos não tem como deixar de ler certos trechos, daí eu ter selecionado alguns, que seguem nas fotografias abaixo.

Ainda que eu tenha achado muita frescura, não posso negar uma coisa: as pessoas valorizavam a educação e a cordialidade. Atraso era algo imperdoável, coisa que hoje é normalíssimo. Estranho é ser pontual. Ceder a vez à damas, respeitar os mais velhos, tudo isso foi-se embora, já que vivemos numa era pop. Concordo que naqueles tempos havia muita hipocrisia, muita coisa de fachada, claro, mas educação, como bem diz minha avó, não ocupa espaço e nunca é demais.

Olhem as atribuições da dona da casa:


Faz-me rir:


Gostei da "delicadeza" no preparo (hehehe):


E tem gente que reclama da sujeira dos pombos, sem pensar no seu valor nutritivo:


O tatu, ao lado da tartaruga, já vem com panela própria...


Bom apetite e boa semana.

segunda-feira, junho 30, 2008

A bela e a fera

Domingo à noite, o sono demorando a aparecer, ligo a televisão em busca de ajuda para adormecer: sempre existe um programa soporífero, que em poucos minutos nos faz cair em letargia.

Pois comecei a assistir um que, ao contrário do que esperava, espantou de vez o sono, não por que fosse de qualidade ou interessante, mas sim pelas situações absurdas que mostrava.

O tal programa se chama Doutor Hollywood, e conta as “agruras” de um cirurgião plástico com consultório em Beverly Hills. Nem comento o fato do dito cidadão, brasileiro radicado nos Estados Unidos, falar como se lá tivesse nascido, num português macarrônico, esquecido da língua-mãe. Acho isso de um pedantismo à toda prova: falar em português entremeando expressões inglesas porque esqueceu a palavra na língua original. Humpf.

Isso, porém, não foi o pior; é apenas o aperitivo para o que viria. Primeiro uma moça de 21 anos que queria seios maiores porque iriam ajudar em sua carreira. Ah, detalhe: ela era cabeleireira. Pois é: para cortar cabelo alheio ela precisa de um par de balões. E eu, que há anos corto o cabelo no Bola, sem nunca me preocupar se ele tem ou não “seios fartos”! Bruta béstia...

O outro caso era de uma senhôôôuuura queria esticar a fuça, como se isso fosse impedir que soubessemos que ela já estava “descendo o morro”: uma mulher de 50 anos NÃO consegue ter aparência de 35, mas foi exatamente isso que o cirurgião prometeu: quinze anos a menos, como se fosse desconto que vemos em vitrine de loja. O melhor de tudo: a bruaca foi lá intimamente desejando que o médico falasse que ela estava ótima, que não precisava de nada. Ingênua... Pois o dito-cujo, além das rugas que incomodavam madame, achou de esticar pescoço, trocar queixo, aumentar maçãs do rosto, o diabo. Claro, até eu que sou mais tonto faria o mesmo: o negócio dele é ganhar dinheiro com isso.

Além dessas duas, o auge foi uma atriz (?) de filmes 'adultos', querendo seios perfeitos e naturais... mas de silicone, claro! Aí começa o festival de peitaria prá lá e prá cá; lembrei dos leilões de gado pela televisão, onde desfilam com dificuldade vacas com úberes imensos. Ela - a moça, não a vaca - perdeu muitos trabalhos por não ter o peitame bonito, por isso queria trocar as próteses.Sim, caros leitores, ela já tinha peitos com 450 mililitros (outra novidade do mundo moderno: no meu tempo dizíamos que a mulher tinha peitos ovo frito, pêra, mamão ou jaca. Hoje mede-se em litros). Só que o raio do médico, muito 'ético' (claro, cheio de câmeras mostrando suas 'angústias e dilemas'), recusa-se a fazer a cirurgia caso a paciente não abandone o cigarro. Ela, num arroubo (claro, diante das lentes tinha que se perfazer), irrita-se com o doutor e diz que irá em busca de outro profissional.

Eu já ando farto e refarto de ver essas notícias de Botox, cinco litros de silicone, lipoaspiração, lifting e o raio que os parta. Cada vez mais vemos pessoas deformadas com tantas intervenções, no mais dos casos ficando piores do que já eram (ou não). Há pouco tempo vi uma entrevista de uma líndíssima – e novíssima – modelo que havia feito preenchimento labial. A moça, perfeita, submeteu-se à essa intervenção, que nãããão deu certo, e lá ficou com bico de pato um par de meses.

Fique claro: não sou contra a cirurgia plástica, assim como não sou contra a cesariana. Sou contra o modo com que são feitas, como se fossem garantia de felicidade e sucesso. No Brasil, em menos de 30 anos, inverteu-se radicalmente a forma de trazer crianças ao mundo: sofrer horas? Imagine! Parto com hora marcada. Ganha o médico, ganha o hospital, ganha (?) mamã. Amamentar? Cruz-credo!

Assim vamos caminhando, dando forma a velha idéia de que aparência é tudo. Vamos vendo cada dia mais mulheres com pele alaranjada, rosto sempre sorridente, olhos orientais, ao lado de homens com cabelos de boneca, peitorais de silicone e prótese peniana. Felizes, claro, pelo menos na aparência. Graças ao bom Deus que não podemos devassar suas almas – se é que eles tem.


Boa semana!


PS: para ilustrar o texto uma imagem nada original: Donatella Versace, padrão de “beleza” atual. Não bastasse a faccia, olhem os pés! Ficou igual a um tatu-canastra, raça de porcos muito comum antigamente no interior do país. Ah, Donatella é a que está sem colar.

domingo, maio 25, 2008

Das coisas que me acontecem...

Para Ana Ramón, amiga que, do outro lado do Atlântico,
compartilha comigo as experiências surreais com os bichos.


Neste mundo existem pessoas que atraem para si situações pitorescas, fora do ordinário cotidiano. São aquelas pessoas que contam histórias inverossímeis, de fazer o ouvinte olhar com rabo dos olhos, mas inquestionavelmente reais. Pois eu me incluo nesse grupo, claro que vocês já devem ter percebido isso com meia dúzia de coisas que contei aqui. Hoje me aconteceu mais uma, digna de figurar entre as “Dez mais” da minha vida.


Haja visto que a maioria das pessoas sensatas tem como animal de estimação um cão, um gato ou um passarinho - as mais sensatas mesmo não têm nenhum. Como não me incluo nesse grupo, no quintal de casa cantam galos, cacarejam galinhas, grasnam gansos e marrecos e pavoneiam-se pavões. Isto, por si só, já bastaria pra dar uma medida da minha excentricidade, mas quando quero provar alguma coisa vou até o fim.


Acontece que nessa fauna emplumada existem sujeitos que odeiam viver encerrados atrás das telas e grades do galinheiro; assim que pilham uma brecha, lá fogem eles e começam a reinar pela vizinhança. Esses desajustados sociais são os pavões – e principalmente as pavoas. Pois foi exatamente uma delas que causou o incidente que vou narrar hoje.


Na quinta-feira, feriado de Corpus Christi, não havia ninguém em casa, e foi quando sucedeu o infausto acontecimento. Aproveitando-se da casa vazia – quando os gatos saem os ratos fazem a festa - , a danada resolveu escapulir. O que ocorre é que se deu mal na tentativa de fuga, e ficou com a perna presa na tela do galinheiro. Sabe Deus quanto tempo a pobre se debateu na tentativa de se desvencilhar da armadilha montada por ela mesma. Quando minha mãe chegou ouviu um bater de asas desesperado e foi olhar o que havia. Deu com a cena que descrevi, e a sorte foi que um dos meus irmãos chegou a seguir, e conseguiu soltar a coitada. Mas o estrago já estava feito: havia fraturado a perna, e a coisa foi feia. Como a bichinha estava com muita dor – sim, ela gritava, e só quem já ouviu gritos de um pavão sabem o que é – minha mãe começou a tentar encaixar o osso. Mexe e remexe, em dado momento a criaturinha sossegou. Então, com ajuda de meu irmão, fizeram uma tala com taquaras, gaze e esparadrapo e a deixaram em paz.


Isso tudo foi no finalzinho da tarde, eu não estava em casa. Quando cheguei ninguém falou nada: minha mãe proibiu comentários, sabia que eu iria ficar fulo da vida, praguejando contra a pavoa destrambelhada. E foi isso mesmo quando ela me contou na manhã de sexta-feira, visto que precisávamos levar a coitada da pavoa ao veterinário. Descobrimos um que atendia aves, e lá nos fomos para Osasco, uns vinte e tantos quilômetros daqui de casa. Para que a pavoa não se debatesse eu a enfiei dentro de uma camiseta, que é a melhor maneira de se carregar frangos, patos e semelhantes: passa-se o pescoço do bicho pela manga e com o restante enrola-se o corpo, prendendo bem as asas. Isto feito, partimos em demanda do médico, mas foi viagem perdida: o raio do doutor que atendia aos bípedes emplumados só chegava às 14:00 horas. Bem, vamos dar meia-volta e...

- Cáspite!!! (não foi isso que falei, mas o decoro e o respeito às famílias que me lêem obrigam-me a distorcer os fatos). A diaba havia me borrado a calça! Minha mãe ria às bandeiras despregadas. Suspirei e voltamos pra casa.


Depois do almoço voltei ao consultório, dessa vez sozinho; quer dizer, sozinho não, que a doente ia comigo. Ela estava num sossego de dar gosto: depois que lhe vesti a camisa, ficou bem quietinha, apenas mexendo os curiosos olhos pra todo lado:

- Olha só a confusão que você aprontou!

- ...

- Não adianta se fazer de desentendida, não! Tá aí, toda quebrada...

- ...

- Macaco que muito pula leva chumbo, nunca ouviu falar?

- ...

- Humpf!


De volta à clínica, fui alvo de todos os olhares, quer dos cães e gatos, quer de seus donos. Afinal, não é todo dia que se vê um sujeito com um avejão debaixo do braço, inda mais se o tal avejão estiver usando camiseta de grupo escolar...


Sentei para preencher a ficha, pererequei pra conseguir segurar a pavoa e tirar os documentos da carteira; depois de anotar meus dados, a atendente perguntou:

- Qual o nome do animal?

- Nome? Ela não tem nome.

- Ah, preciso colocar na ficha do paciente.

- Hum... Coloca aí: Peste!

- Ai, moço... Tadinha...

- Tadinha? Peste sim, olha só o que ela aprontou... Põe Peste mesmo.

- Ah, desanimou a moça. Então Pestinha, vai?

Farto daquilo, aquiesci com a cabeça:

- Hum-hum.

- Pode esperar o doutor chamar.


Enquanto me dirigia em busca de lugar para sentar todos os olhares me acompanhavam. Uma velhinha a um canto, seca como um maracujá e dona de um vira-latas esfumaçado, perguntou se era um pavão.

- Pavoa, respondi com um meio sorriso.

- Ah. E o que ela tem?

- Quebrou a perna, e antes que a velhinha perguntasse como, já contei o acontecido.


Nisso entra uma mulher gorda; mas imagine alguém muito gorda; coloque mais duas arrobas* e você está vendo a tal mulher, que surge sendo arrastada por um enlouquecido labrador resfolegante. O cachorro assustou um gato, fez xixi no balcão, cheirou – e irritou – o cachorro esfumaçado, pulou no aquário, fazendo as recepcionistas levarem as mãos à cabeça. Eu segurei firme a pavoa, só faltava ela sair voando pela clínica; Pestinha ficou ressabiada, eriçou as penas da crista, mas não passou disso. Enfim a gorda estacionou e o cachorro ficou menos inquieto.


Foi aí que surgiu um médico surgiu no corredor e chamou o paciente:


- Lilu!


“Ai meu Deus! Eles chamam pelo nome do bicho! Tô frito...”. Passaram-se alguns minutos e ouço: “Pestinha!”, enquanto olhares de reprovação me fulminam...


Pra resumir a história: levei a pavoa até o consultório, depois fomos tirar radiografia – e tive que me paramentar com roupa anti-radiação - , até o diagnóstico:

- Bem, ela realmente teve uma fratura séria, e existem duas opções: cirurgia, com colocação de um pino, ou simplesmente imobilizar a perna com uma tala, que permanecerá por trinta dias...

Suspirei e perguntei qual o valor de cada um dos procedimentos:

- A cirurgia em torno de 350 reais, a tala fica uns 100.

Aí foi minha vez de sentir dor. Devo ter feito uma cara bem compungida, pois ele continuou:

- Olha, no caso dela acho que a cirurgia é dispensável. Ela é nova, está saudável e vejo que o senhor é cuidadoso.


Autorizei os procedimentos, ele disse que ela ficaria ali e que eu voltasse buscá-la no dia seguinte. Aproveitei pra trocar a camisa suja enquanto esperava alguém que iria levá-la para o ambulatório. Apareceu um molecote com cara de palerma, perguntou se aquilo era uma galinha d´Angola, pegou-a de mal jeito, quase quebrou a perna dela novamente. Suspirei. Assinei a papelada e paguei a conta: 235 reais... Peste!


Sábado, voltei à clínica para buscar a infeliz; tomei um chá-de-banco de meia hora, ao cabo da qual fiquei sabendo que não poderia levar Pestinha pra casa. O motivo? Ela havia entornado o pote d´água e molhado o gesso. Minha vontade foi de fazer uma eutanásia ali mesmo, mas me contive. Tinha outros compromissos, não poderia esperar refazerem tudo novamente. Teria que voltar no domingo à tarde.


Voltei pra casa refletindo sobre a insignificância humana diante dos desígnios misteriosos do destino e pensando em procurar na internet alguma receita de pavão assado...


Domingo, após o almoço, liguei para saber se não haveria outro imprevisto e falei com o veterinário; disse que eu poderia ir buscá-la. Saí de casa numa animação sem tamanho, temendo ser vítima de nova surpresa preparada por minha pavoa delinquente.


Esperei durante quarenta minutos – duas emergências, coincidentemente intoxicação por inseticida – até que fui chamado:


- O dono da Pestinha!


Sob olhares da assistência, fui buscar a criaturinha que tanto trabalho me deu. Ela estava ótima, com a perna engessada. Coloquei-lhe uma camisa limpa e viemos pra casa. Agora está lá quietinha, sozinha num viveiro. Vamos ver o que apronta durante os 30 dias em que deverá ficar de molho. Novas notícias a qualquer momento em boletim extraordinário.

E Boa Semana!


* Arroba: antiga medida equivalente a 15 quilos. Hoje só serve pra endereço de correio eletrônico.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Homo sapiens?



São Paulo, 25 de janeiro de 2008: a cidade comemora os seus 454 anos, e no tradicional bairro do Bexiga um bolo com 454 metros de comprimento é uma das atrações do dia.

Combinamos, Letícia e eu, de fotografar a miséria humana que seria o ataque impiedoso pela massa esfaimada, ávida por aparecer melecada de glacê. Como tradicionalmente o bolo é atacado ao meio-dia, chegando lá por volta de onze horas daria tempo de arrumar um local privilegiado para tirarmos nossos retratos e tecermos comentários ácidos sobre a triste condição humana.


Ah, ledo engano! Quando lá chegamos, a patuléia já se dispersava com bolo nos cabelos, na cara, em sacolas e recipientes vários (vide a matéria no Flanela Paulistana). Tive que estacionar uns dois quarteirões além do epicentro da coisa; viemos então pelo meio daquela miséria humana, aquele povo sujo carregando como troféu uma sacola cheia de uma massa disforme, resto do que foi um pão-de-ló coberto de glacê.

O pior de tudo era a náusea que me causava aquele cheiro de suor, lixo e bolo. Ver as fotos ou imagens pela televisão não dão uma pálida idéia do que é aquilo. Pior que o asco era a sensação de impotência diante de um cenário tão mesquinho: como pessoas podem agir como uma alcatéia de hienas diante de um bolo mequetrefe? Fosse na Somália ou na Etiópia, onde a fome é uma coisa real, até posso entender, mas numa cidade como São Paulo (onde existe pobreza, sim, mas não me consta que ninguém morra de inanição)? E olha que eu já me enfiei em cada buraco, já fiz coisas que Deus olha espantando, mas presenciar aquele bolo pisoteado foi uma das mais chocantes.

Nem nosso costumeiro café tomamos. Com um riso nervoso, disse que precisávamos ir para um extremo daquilo tudo, Shopping Iguatemi ou a Daslu, onde a miséria humana se exibia menos galhardamente. Acabamos no Paulista, admirando vitrines e tomando um espresso (mais caro que café de padaria e não tão gostoso). Teoria do contraste.

Enfim, boa semana!


Explicação necessária: minha amiga Ana Ramon, que vive em Portugal, muitas vezes fica sem entender regionalismos cá deste blog. Assim sendo deixo os esclarecimentos: Bexiga é um bairro tradicional, reduto de imigrantes italianos no século XIX, e considerado um dos pontos turísticos e tipicamente paulistanos. Shopping Iguatemi e Daslu são lugares de consumo classe AAA, reduto de gente endinheirada (alguns nem tanto) e chic (muitos, mas muitos mesmo, nem tanto).

segunda-feira, novembro 05, 2007

Desculpa esfarrapada

Escutei uma piada esses dias que me fez cair na gargalhada:


"Um camarada entra em um banheiro público e vê dentro de um vaso recém utilizado uma nota de cinco reais que alguém deixou cair. Ele fica olhando, olhando e pensa consigo: 'Ora, enfiar a mão na merda por causa de cinco reais?'. Já está perto da porta, quando repentinamente tem uma idéia: volta até a privada, tira uma nota de 50 da carteira e também joga lá dentro. 'Bem, por 55 reais vale a pena enfiar a mão na merda.' "


Depois fiquei pensando que fazemos isso todo dia, nos enganando com essas desculpas esfarrapadas que tentam justificar perante nossa consciência aqueles atos que condenamos nos outros. Faça o que eu digo, tatati, tatatá...


Quantas vezes na vida não enfiamos a mão na merda por nossa conta e risco?