domingo, maio 20, 2007

Códigos de família

Em toda família existem códigos não escritos que atravessam gerações.

Zélia Gattai até escreveu um livro sobre isso, com aquelas expressões que derivam de algum incidente familiar e acabam servindo de paradigma parasituações semelhantes. Uma frase, um tique, uma mania enfim, que permanecem marcantes e acabam sendo repetidos pela vida afora, dentro daquele círculo familiar. Hoje vou contar alguns códigos de minha família.

Há alguns anos um paraguaio esteve de visita na casa de meu padrinho. O raio do homem chegou cheio de nove-horas, que tinha um regime alimentar muito regrado, feito por uma nutricionista da USP, patati, patatá... Pois bem: na hora do almoço ele comeu e repetiu tudo o que havia na mesa, lambendo os beiços: "Que costosso! Igualcito de mi cassa". Além disso, o distinto dizia-se vegetariano: não comia "cadáber".

Mas quis o destino que ele ainda lá estivesse no Natal, e o destaque da ceia seria uma bela leitoa assada, a Lurdinha. (Explicação necessária: essa leitoa foi presente de um vizinho. Quando minha madrinha foi lavar e temperar a bichinha, achou dentro dela um papelzinho escrito "Lurdinha". Logo chegaram a conclusão de que, como o vizinho vendia muitos leitões nessa época, costumava colocar um papel com o nome de quem encomendou dentro do bicho. Deve ter feito uma troca, mas isso serviu pra batizar a leitoa).

Como ia dizendo, chegou o Natal e entre tantas iguarias típicas dessa época, lá estava a Lurdinha. Meu padrinho começou a destrinchá-la e servir aos convidados. Pois o raio do paraguaio pegou um belo naco da leitoa, e outro, e mais outro, diante do espanto de todos. A folhas tantas, alguém na mesa não se conteve e soltou: "Isso que o senhor não come cadáver, hein, senão comia até a cabeça da Lurdinha!"Desse episódio ficaram o "Que costosso, igualcito de mi cassa", e Lurdinha ficou como sinônimo de leitoa assada...

Já o célebre tio Pedro, quando está em alguma festinha ou visita em casa de alguém e quer ir embora, olha para o relógio e sutilmente diz pra tia Linda: "Bom, dona, quando queira..." Essa expressão é usada quando se quer ir embora sem parecer chato, jogando a culpa para outro. Ele também tem um gesto muito característico, estendendo apenas polegar e indicador (como imitando um revólver): tanto pode indicar direção, apontando para determinado ponto ou expressar desconhecimento, dúvida, quando movidos simultaneamente para direita e para esquerda.

Já minha madrinha conta que quando namorava e pedia pra minha avó para ir no cinema, ela consentia. Porém, quando o namorado aparecia no portão, minha avó olhava para o céu azul, sem uma nuvem sequer, e dizia: "Não sei, acho melhor vocês não irem; parece que vai chover..." Isso também permaneceu e é usado quando não se está com vontade de ir a algum lugar: "Não sei, parece que vai chover..."

Mas não é só no círculo familiar que surgem esses códigos. No trabalho existem vários desses códigos, e que acabam ficando conhecidos e celebrizados pelo uso constante. Um que ficou foi aquele usado pela Marina quando tinha muito serviço: "Meu, tenho 715 coisas pra fazer". Pois 715 coisas ficou como sinônimo de trabalho em excesso.

Outra pessoa, sempre que questionada e não tem uma resposta animadora, começa a frase com um "Então...", mas dito de um jeito característico. Isso também pegou, e é usado sempre que a resposta não é das melhores.

Mas a mais tragicômica de todas foi quando meu avô teve que dar uma notícia de falecimento. Logo ele, daqueles portugueses antigos que quebra mas não verga, homem de poucas palavras, de dizer as coisas sem rodeios. O finado era um grande amigo da família, o italiano Angél Batalha (só depois de muitos anos vim saber que o nome certo era Urgério Bataglia). O coitado morreu atropelado por um caminhão, e quis o destino que o primeiro a ser avisado fosse meu avô.

Pois bem: acompanhado do genro, dirigiu-se à casa da então viúva; muito sério,mandou que ela chamasse os filhos e laconicamente, sem lé nem cré, soltou: "Calma, calma, o Angél foi atropelado e morreu".

Foi um pandemônio: desmaios, gritos, e ele nervoso com aquele escândalo todo: "Ora, mas eu avisei: calma, calma!", pois para ele a notícia foi dada de maneira normal. Então, sempre que na família temos alguma notícia que merece cuidado especial, já começamos com o "Calma, calma..."

Prestem atenção e garanto que todos vocês também usam expressões surgidas em algum incidente familiar, e que acabam gerando códigos só conhecidos por um pequeno grupo de pessoas.

Que todos tenham um domingo bem costosso e uma Boa Semana!

4 comentários:

Ana Ramon disse...

Olá Ricardo. Sê muito bem-vindo! Já estranhava o silêncio no teu blog. Felizmente que a tua má maré já passou. Foi um prazer (é sempre) ler mais este teu post que me fez sorrir, o que ultimamente tem sido raro. Por aqui ainda andamos um pouco entontecidos com tanta má-sorte ao mesmo tempo. Mas aos poucos estamos a recuperar. Um beijinho grande. Fiquei feliz com o teu regresso!

Glau disse...

Até que enfim vc apareceu!!!!!
Estava com saudades.
Não suma novamente, heim!

Kandy disse...

Viu só como você faz falta?! Agora acredita em mim?!

Jorge Eduardo disse...

Prezado Ricardo, parabéns por seus belos textos e obrigado por seu comentário no meu site. Volte sempre!