segunda-feira, junho 11, 2007

Mais uma história de amor...

Dia dos Namorados, vou contar uma história de amor que começou no distante ano de 1936.

Não quero definir aqui o que é amor, nem me deter na análise do que foram os longos anos de vida em comum. Acho que pra bom entendedor pingo é letra, e nesse caso um olhar disse tudo.

Pularei a parte de como eles se conheceram, como foi a luta pra superar a pobreza e atingir um padrão razoável de vida, que permitiu viagens por todo o Brasil, um ano e meio na Europa, carro do ano, uma belíssima casa, a primeira televisão do bairro. Mas nada disso vem ao caso.

Vamos saltar direto para 1989, cinqüenta e três anos depois daquele primeiro encontro. Ele está num quarto de hospital, vítima de derrames e espasmos vasculares consecutivos, já desenganado pelos médicos. Depois de passar a noite em claro, ela estava exausta e foi até à cantina do hospital tomar um copo de leite. Deixou o marido aos cuidados de uma sobrinha e de uma velha amiga.

Pouco depois dela ter saído do quarto, para surpresa das duas, ele abriu os olhos. Ficou por instantes olhando o teto. Súbito, inacreditavelmente começou a se soerguer na cama. Atarantadas, elas foram ampará-lo, colocando travesseiros sob suas costas para apoiá-lo. Foi então que seus olhos começaram a percorrer o quarto, como se buscasse alguma coisa. Nisso ambas entenderam o que ele queria e foram chamar aquela que ele procurava com suas últimas forças.

No corredor ouviu-se o barulho de um copo se espatifando e o som dos passos rápidos, daquelas pernas cansadas que corriam buscando forças numa longa história de vida. Prestassem mais atenção e se ouviria o bater descompassado de um coração...

Quando ela entrou no quarto, não disse uma palavra; simplesmente parou na porta, arfando. Ele continuava percorrendo o quarto com o olhar quando encontrou sua companheira de mais de meio século.

Fitou-a durante alguns segundos e então fechou os olhos. Definitivamente.

Celina e Francisco em Portugal, 1956

5 comentários:

Anônimo disse...

eu quero viver um amor assim!
é possível nos dias de hoje?
bjo grande, MaRi.

Anônimo disse...

Depois que as duas almas comungam, se tornam uma só... Vivem em corpos separados, mas batem um só coração, veem um só horizonte...
Linda historia... Acho que um amor desse existe, pq isso se conquista com o tempo...
Tem que viver um dia de cada vez, da forma mais simples possivel...
Feliz dia dos Namorados...!!!
Bjo
Luana

Ana Ramon disse...

Cá venho de novo espreitar-te :))
Aqui em Portugal, o Dia dos Namorados é a 14 de Fevereiro. Um dia importado porque quando eu era miúda, não se comemorava esse dia que não existia no calendário das comemorações portuguesas. Em nossa casa não temos o hábito de alinharmos em dias especiais.. fazemo-los nossos quando temos vontade.
Mas a história que contas é lindíssima e triste ao mesmo tempo. As despedidas são sempre tristes mesmo quando culminam uma vida de felicidade a dois.
Um beijinho grande

Celia disse...

Eu sou a sobrinha que acompanhava aminha tia nesta triste e amorosa despedida.... Este fato tenho em minha mente para sempre..... Os médicos já haviam dito que nada mais poderiam fazer, que era uma questão de horas para o seu falecimento..... Seus dedos já estavam necrosados, mas mesmo assim, em um último e derradeiro esforço, ele arrancou de si mesmo a força vital para a adespedida final..... Ao mesmo tempo que a cena era tristíssima, era encantadora...... Rick, cada vez que leio suas crônicas, meus olhos sofrem um processo evolutivo, as lágrimas escorrem e me fazem sentir mais humana.......Lindo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Célia Sanchez

Kandy disse...

Que amores assim existem, não tenho dúvidas. Mas estão, sim, em extinção. Pouquíssimos são os corajosos que hoje em dia se dispõem a amar assim, de modo tão despreeendido. Legal você relatar essa história aqui. Dá uma esperançazinha na gente, que, mesmo sabendo que amores assim existem, às vezes fica descrente.