Dia dos Namorados, vou contar uma história de amor que começou no distante ano de 1936.
Não quero definir aqui o que é amor, nem me deter na análise do que foram os longos anos de vida em comum. Acho que pra bom entendedor pingo é letra, e nesse caso um olhar disse tudo.
Pularei a parte de como eles se conheceram, como foi a luta pra superar a pobreza e atingir um padrão razoável de vida, que permitiu viagens por todo o Brasil, um ano e meio na Europa, carro do ano, uma belíssima casa, a primeira televisão do bairro. Mas nada disso vem ao caso.
Vamos saltar direto para 1989, cinqüenta e três anos depois daquele primeiro encontro. Ele está num quarto de hospital, vítima de derrames e espasmos vasculares consecutivos, já desenganado pelos médicos. Depois de passar a noite em claro, ela estava exausta e foi até à cantina do hospital tomar um copo de leite. Deixou o marido aos cuidados de uma sobrinha e de uma velha amiga.
Pouco depois dela ter saído do quarto, para surpresa das duas, ele abriu os olhos. Ficou por instantes olhando o teto. Súbito, inacreditavelmente começou a se soerguer na cama. Atarantadas, elas foram ampará-lo, colocando travesseiros sob suas costas para apoiá-lo. Foi então que seus olhos começaram a percorrer o quarto, como se buscasse alguma coisa. Nisso ambas entenderam o que ele queria e foram chamar aquela que ele procurava com suas últimas forças.
No corredor ouviu-se o barulho de um copo se espatifando e o som dos passos rápidos, daquelas pernas cansadas que corriam buscando forças numa longa história de vida. Prestassem mais atenção e se ouviria o bater descompassado de um coração...
Quando ela entrou no quarto, não disse uma palavra; simplesmente parou na porta, arfando. Ele continuava percorrendo o quarto com o olhar quando encontrou sua companheira de mais de meio século.
Fitou-a durante alguns segundos e então fechou os olhos. Definitivamente.
Não quero definir aqui o que é amor, nem me deter na análise do que foram os longos anos de vida em comum. Acho que pra bom entendedor pingo é letra, e nesse caso um olhar disse tudo.
Pularei a parte de como eles se conheceram, como foi a luta pra superar a pobreza e atingir um padrão razoável de vida, que permitiu viagens por todo o Brasil, um ano e meio na Europa, carro do ano, uma belíssima casa, a primeira televisão do bairro. Mas nada disso vem ao caso.
Vamos saltar direto para 1989, cinqüenta e três anos depois daquele primeiro encontro. Ele está num quarto de hospital, vítima de derrames e espasmos vasculares consecutivos, já desenganado pelos médicos. Depois de passar a noite em claro, ela estava exausta e foi até à cantina do hospital tomar um copo de leite. Deixou o marido aos cuidados de uma sobrinha e de uma velha amiga.
Pouco depois dela ter saído do quarto, para surpresa das duas, ele abriu os olhos. Ficou por instantes olhando o teto. Súbito, inacreditavelmente começou a se soerguer na cama. Atarantadas, elas foram ampará-lo, colocando travesseiros sob suas costas para apoiá-lo. Foi então que seus olhos começaram a percorrer o quarto, como se buscasse alguma coisa. Nisso ambas entenderam o que ele queria e foram chamar aquela que ele procurava com suas últimas forças.
No corredor ouviu-se o barulho de um copo se espatifando e o som dos passos rápidos, daquelas pernas cansadas que corriam buscando forças numa longa história de vida. Prestassem mais atenção e se ouviria o bater descompassado de um coração...
Quando ela entrou no quarto, não disse uma palavra; simplesmente parou na porta, arfando. Ele continuava percorrendo o quarto com o olhar quando encontrou sua companheira de mais de meio século.
Fitou-a durante alguns segundos e então fechou os olhos. Definitivamente.
Celina e Francisco em Portugal, 1956
