sábado, julho 07, 2007

De volta ao futuro

Sou uma pessoa de paradoxos. Uma amiga que entende desse negócio de Astrologia diz que é por causa de meu signo, Aquário, ligado ao ar, coisa e tal. Não sei, mas talvez seja uma explicação para o fato de nesse momento eu escrever num notebook que é mais inteligente que eu, com dois processadores, memória que faria corar qualquer elefante, câmera embutida, o diabo a quatro. Sim, moderníssimo, tocando mp3 que baixo via programas de compartilhamento na internet. E nem preciso de fios para conectá-lo à Web, pois já vem com sistema wireless... Não é necessário dizer também que o comprei pela internet...

É, tudo isso, quem vê a primeira vista logo imagina-me um viciado em tecnologia, saído de algum filme de ficção científica futurista. Mas engana-se redondamente.

Por exemplo: é muito prático abrir o computador, selecionar um monte de mp3 e deixar tocando por horas a fio, faço isso várias vezes. Mas noutros dias, pacientemente, abro o pesado móvel de jacarandá e de lá tiro discos 78 RPM, velhos de cinquenta anos, com uma música de cada lado (os mais jovens talvez nunca tenham visto um). Depois de escolher alguns, dou pelo menos cinquenta voltas na manivela do gramofone; aí calmamente coloco o disco, ajeito cuidadosamente a agulha e logo o chiado que acompanha as notas musicais se faz ouvir. Finda a música, viro o disco, mais algumas voltas na manivela e recomeça a função...

As fotos que vocês vêem agora foram tiradas numa máquina digital com 6 Megapixels, redutor de olhos vermelhos, que filma, grava sons, memória de 1GB, um despropósito. Entretanto, não tem a mesma poesia das velhas Kodak e Klinax, cinquentonas que ainda tiram fotos muito boas (pena que a cada dia se torna mais difícil encontrar filmes para elas).

Acho a internet uma ferramenta magnífica para se fazer pesquisas, visitar lugares, buscar imagens - claro que ciente de que nem sempre as fontes são confiáveis. Mas não troco minha coleção de livros antigos - ou novos - sobre São Paulo, onde posso encontrar informações que nenhuma página da Web traria. Nem o cheirinho de passado, as páginas amareladas, um bilhete perdido no meio das páginas. O objeto livro não pode ser substituído pela fria tela do computador. E minhas revistas Eu Sei Tudo e O Cruzeiro da década de 20, com anúncios e reportagens curiosíssimos?

Ainda que vocês me provem por A+B todas as vantagens do forno microondas, aceito e respeito, mas ninguém me demove da idéia de que o fogão a lenha é muito melhor. Trabalhoso, sim, mas faz uma coisa que nenhum aparelho moderno consegue: reunir as pessoas em torno do fogo, sentindo o aroma da comida que cozinha lentamente, sem pressa, como deve ser.

Enquanto escrevo posso rapidamente consultar as horas, até os segundos, bem como que dia é hoje e qual a temperatura ambiente. Mas quem me chama mesmo a atenção são os dois relógios de parede, que semanalmente me cobram o preço de seu serviço: dar-lhes corda. Sei que muitos nem imaginam como se faz isso, mas garanto que é muito bom, transmite a sensação de que neste mundo tão descartável algumas coisas permanecem sólidas. O tictac e as badaladas a cada quarto de hora resgatam um doce sabor do passado, que nenhum relógio digital consegue fazer.

Talvez nesse paradoxo esteja a minha grande qualidade: estar de olhos abertos para o futuro, mas sem nunca desprezar o passado, por acreditar que o meu presente é a soma de ambos...

Uma Boa Semana!!!

4 comentários:

Glaucia disse...

Ai Ricardo!
Este é você MESMO...
De bem com o passado, com o presente e com o futuro.

Paty disse...

Muito bom!!!! Saiba que te admiro muito por você amar o passado, pela sua simplicidade e ao mesmo tempo utilizar a tecnologia para sua praticidade. Te adoro!!! Beijos

Kandy disse...

Eu gostei do texto, sim! Acho que ele revela a sua grande capacidade de adaptação. Ser abrangente é muito bom: permite-nos aprender sempre com as experiências passadas, nossas ou dos outros, com as descobertas presentes, nossas ou dos outros, e com as tendências futuras, que ainda não são de ninguém.

Leticia disse...

Ricardo, você escreve muito bem! E, como eu, tem um probleminha de reencarnação, como diz meu pai. Só gosta de coisa antiga!