segunda-feira, dezembro 10, 2007

Dona Agueda no País da Gramática

Enquanto escrevo, minha avó (a que a Kandy acha divertida) está aqui ao meu lado, folheando Tirando dúvidas de Português, um dos muitos livros que a Letícia me emprestou para treinar revisão. Cada tópico que lê pede a minha explicação; desde que me entendo por gente ouço ela dizer que precisa melhorar sua leitura. Há anos. Muitos. Muitos mesmo.


Quando criança ela literalmente fugia da escola. Detestava. Até hoje quando alguém reclama que o filho não gosta de estudar, ao contrário de recriminar a criança, sempre tem uma palavra de solidário consolo e compreensiva cumplicidade. Engraçado que para fazer contas ela é excelente, tem um raciocínio rápido, bate qualquer um aqui de casa; já para ler e escrever... Seus bilhetes são peças que dignas de figurar num tratado sobre hieróglifos. Só ela mesma consegue decifrar, e ainda fica brava com nossa ignorância: olha aqui, tão claro!


Agora está me sabatinando: quando se usa “se não” e “senão”; dou uma explicação que não a convence, porque diferente do que está no livro.


Então me faz a pergunta difícil: por que o português fala tão errado? Tento explicar entre a língua culta e a falada, e que elas estão divorciadas há muito tempo, por mais que alguns tentem escrever coloquialmente e outros falar de modo escorreito*.


Ela continua lendo, em voz médio-alta, escandindo as sílabas, relendo com diversas entonações. Lê a frase errada, em seguida lê a correta: “Ah, isto aqui é muito bom pra quem é burro!”. Não consigo segurar uma gargalhada; aproveito e agradeço o elogio indireto.


Então ela repete pela zilionésima vez que não gostava de ir à escola, que fugia das aulas, mas que hoje se arrepende. Aproveita para, pela enésima vez, me pedir um livro “bom”, que traduzo por bem- humorado, com poucos personagens (sei que personagem é substantivo feminino, mas prefiro masculinizar, como se fosse atleta pega em exame de doping) e com letra grande. Ah, sim, ela tem um método bem particular de ler: começa as vinte, trinta primeiras páginas, salta para o meio, lendo mais outro tanto e pula para as três últimas.


- Mas e se mudar a história ou alguém morrer, vó?



- Ora, azar dele.


Continua a ler, agora vendo a grafia das palavras com ss, s ou z. Quase choro quando pede para que eu explique o motivo das diferenças. Só está faltando mesmo dizer que vai comprar um livro igual pra ela; isso é batata. Perdi a conta de quantas cartilhas ela comprou e que depois de longo exílio nalgum armário foram doadas. Mas minha expectativa dura pouco:


- Ah, vou comprar um livro deste pra mim. Fica um tempo calada, pensativa, e dispara: Um não, dois: o outro vou mandar p´ro pinguço**... e ri ironicamente.


Nova gargalhada minha. Essa é minha avó.


Se não ou senão?


*Escorreito: culto, sofisticado. Sempre coloco uma palavra assim pra Kandy, ela se diverte com este meu rico vocabulário.

**Pinguço: apelido carinhoso que ela deu ao atual chefe (?) da Nação, por quem tem verdadeira ojeriza.


Ah, se algum "burro" mais se interessar: Tirando dúvidas de Português - Odilon Soares Leme, Editora Ática.

4 comentários:

Leticia disse...

Ai que bonitinha, a dona Agueda! Pois o livro é dela quando você terminar, Rick.

Manda um beijinho pra ela e diz que somos parecidas: a ojeriza é a mesma.

Kandy disse...

Tá vendo?! Eu digo que a sua avó é divertida! Ela é pra lá de espirituosa, o que revela muita sabedoria. E a gente tem coisas em comum: gostamos de paçoca (ela mais que eu, claro), temos ojeriza ao pinguço (eu mais que ela, aposto) e nos divertimos com a língua portuguesa!

Kandy disse...

Esqueci... obrigada pela tradução de "escorreito". Com legenda é mais fácil... ;-)

Janaína Perez disse...

Nossa! Amei sua avó! Ela mora onde? Se morar perto de Diadema pode ser minha aluna, né? :) (Sou professora de EJA, não sei se isso fica claro no meu blog).
Bom, ela não é um caso raro: tem muito aluno que é excelente em Matemática e não produz nada nas demais disciplinas. Já li uma tese de quem é bom em Matemática DEVE ser bom na sua Língua Materna e vice-versa. Sei lá... Muitos amigos meus de humanas fogem dos cálculos, os de exatas dizem escrever mal, e eu fico no meio, já que quase prestei Letras, (com habiliatação em Inglês), no lugar de Matemática,rs...
Meu e ela tá certa qdo se refere ao pinguço! Se quiser, eu a ajudo na postagem do livro, rs!
Ah! Última coisa: a "loura-burra" aqui gosta do "Não erre mais", (Sacconi). Acredito que sua avó daria boa risadas no trecho em que ele fala sobre janta/ jantar...rs.
Fui!