segunda-feira, novembro 19, 2007

Preto no Branco

Só não compreendo por que Deus fez uma pessoa tão boa e prestimosa nascer preta como carvão. É verdade que as jabuticabas, amoras e maracujás são pretos. Isso me leva a crer que a tal cor preta é uma coisa que só desmerece as pessoas aqui neste mundo. Lá em cima não há essas diferenças de cor. Se houvesse, como havia de ser preta a jabuticaba, que para mim é a rainha das frutas?” Emília, Marquesa de Rabicó, em suas memórias.

Racista, preconceituoso e politicamente incorreto; esse é o perfil que se pode traçar de Monteiro Lobato, bem como de sua mais famosa personagem. Muito fácil chegar a essa conclusão pela simples leitura de um trecho escrito há 70 anos, num país em que a escravatura havia terminado há menos de meio século. O assunto é polêmico.


Assim como Ziraldo, que afirma ser Emília a maior personagem feminina da literatura brasileira (opinião que acho acertadíssima), defendo que a maior personagem negra de nossa literatura é a boa Tia Nastácia. Num país que conviveu por três séculos com a escravidão, a única personagem saída da senzala para os livros foi Isaura, mas já michaeljacksonzada para poder entrar nos salões da intelectualidade e da família brasileira. Negro mesmo, daqueles retintos, como personagem de destaque só surgiria com Jorge Amado e outros modernistas de segunda geração, mas sem o mesmo alcance da cozinheira do sítio de Dona Benta.


E Macunaíma? Muito bem: ele era um índio que nasceu negro, mas depois foi se metamorfoseando no correr da narrativa, ao contrário de Nastácia que, para usar palavras da própria Emília, sempre foi “negra e beiçuda”. Mas ainda assim façamos uma continha básica: quantas pessoas leram Macunaíma e quantas leram algum livro do Pica Pau? O livro de Mario de Andrade é daqueles excessivamente citado, mas pouquíssimo lido, como a Divina Comédia, Metamorfose, O ócio criativo, O Príncipe e por aí afora. Ah, mas o Sítio virou programa de TV! Ué, e Macunaíma não virou filme também? Faça-se uma pesquisa em diversas camadas sócio-culturais perguntando quem é Tia Nastácia e quem é Macunaíma, aí então discutiremos o assunto com bases científicas.


Lobato nasceu em 1882 no Vale do Paraíba, região com larga tradição escravocrata. Filho de uma longa estirpe de fazendeiros, neto do Visconde de Tremembé, sua ama foi a preta Esméria, exímia contadora de causos e pescadora de camarõezinhos nos riachos da fazenda. A infância do escritor foi cercada por pajens, amas, moleques de recado, tios e tias, todos eles escravos ou recém-libertos. Quando tinha seis anos, o menino de grossas sobrancelhas soube que a Princesa havia libertado todos os escravos, mas - coisa curiosa - poucos foram embora das fazendas ou do sobrado do Visconde (de Tremembé).


Afinal, que valia essa tal “liberdade” para quem não sabia fazer nada além de obedecer ordens do sinhô? Yolanda Penteado conta em suas memórias1 que dois escravos de seu pai, ao terem notícia sobre a Lei Redentora, se atiraram no lago da fazenda, morrendo afogados. Exagero, sem sombra de dúvida, mas outros casos semelhantes existiram. Como tudo neste país, a Lei Áurea foi apenas um decreto oficial, mas sem nenhum estudo ou amparo que ajudasse os antigos cativos na nova vida. Crie-se a lei e veremos qual será o seu impacto na vida nacional, como no velho adágio de que no balanço do carro se acomodam as abóboras. Em 1920 a octogenária Princesa Isabel perguntava inocentemente para um desconcertado Assis Chateaubriand: “E então, doutor Assis, o que foi feito dos negrinhos que vendiam cocada, tapioca e beijus nas ruas de Petrópolis em 1888?”. Existe um grande e tortuoso caminho entre o mundo das idéias e o que de fato acontece2.


Poucos anos depois o que se via pelas cidades brasileiras eram negros mendigos, bêbados e prostitutas, ou trabalhado nas mais baixas profissões, grande parte ainda em regime de semi-escravidão. Muitos se lamentavam saudosos do tempo do cativeiro, quando ainda havia comida e teto; agora viviam miseravelmente em cortiços ou nas nascentes favelas, quando não sob “o teto das estrelas”, belo eufemismo para os que não tinham onde morar. Some-se a isso a ideologia positivista instaurada pelos novos donos do poder e temos o cenário perfeito para criar um abismo social cuja profundidade até hoje se mostra diante de nós. A Abolição foi uma tentativa de jogar para debaixo do tapete a negra mancha da escravidão brasileira, sem maiores preocupações se isso não criaria problemas maiores.


Muitos críticos apontam o fato de Tia Nastácia estar relegada a segundo plano na obra, como a criada ignorante, analfabeta, que só servia de contraponto para a cultura apreendida pelas crianças. Tio Barnabé, outro negro que vivia como agregado nas terras de Dona Benta, tinha o mesmo perfil da cozinheira. Ambos representavam a cultura popular, com suas deficiências e limitações. E se Lobato tivesse invertido os papéis, colocando tia Benta como a criada e Nastácia como Sinhá? O Coronel Teodorico como peão e Barnabé como o fazendeiro? Será que o autor receberia elogios? Será que sua obra seria fiel ao panorama da sociedade de então?


A classe cafeicultora paulista não queria mais as bás ou as mães-negras para cuidar de seus rebentos; nannies, fraüleins, mademoiselles e congêneres, todas brancas e européias, inculcavam civilização naqueles filhos de gente criada pela negrada das fazendas. A gorda negra cozinheira ficou na fazenda; nos palacetes da capital ela não tinha lugar entre a criadagem européia. Bem, e quando havia, não passava da cozinha, na antiga separação de classes em que cada um conhece seu lugar. Até meados do século XX era comum tratar por crias os filhos de antigos escravos que surgiam de tempos em tempos nas portas dos fundos dos casarões senhoriais. As madames – sucedâneo chic da sinhá colonial – condoídas e com ar de reprovação mandavam que a governante lhes desse um pedaço de fazenda ou alguns níqueis, e comentavam piedosas: “Esse pobre diabo nasceu na fazenda de papai, filho de uma escrava. Ganhou a liberdade e olha só: vive como um mendigo, todos os meses vindo pedir alguma coisa. Não sabem dar valor a nada”, e folheava languidamente seu número de Le Illustration... A mesma classe rica que décadas atrás vivia em promiscuidade com os escravos, para grande escândalo do viajantes-cronistas do século XIX, agora queria passar uma borracha nessa relação simbiótica. Faziam-se franceses, mas suavam como botocudos sob as casacas. Lobato mesmo foi um dos grandes críticos dessa mentalidade, afirmando que todo povo precisa ter sua identidade própria, construída com aquilo que se tem, e não copiando modelos de fora. Não se esqueçam que se hoje o Saci Pererê é tão famoso foi graças ao trabalho de resgate feito por Lobato em 19183.


A élite vivia com os olhos voltados para Paris, a grande Meca da civilização e do chic; claro que nada que fosse nacional poderia interessar, ainda mais aquele restolho do império. Orgulhavam-se de não serem racistas como na América do Norte – onde por dá-cá-aquela-palha o negro já estava se balançando com a corda no pescoço. Não, aqui vivemos em harmonia, eles sabem o seu lugar. Nesse “seu lugar” vai a mais dolorosa das discriminações, aquela que menospreza a capacidade do outro, a que nega a possibilidade de evolução, aquele que, enfim, o coloca em último plano na escala das gentes. O racismo brasileiro, maquiado pelos modos amigáveis, complacentes, paternais é mais pernicioso do que o racismo escancarado. Este ao menos cria a revolta em quem o sofre, revolta que gera ação e tentativa de mudança, ao passo que aquele acaba por tachar o eventual reclamante de ingrato: “Olha, eu tratava ele como gente, e veja só o que fez!”, “É, negro quando não caga na entrada, caga na saída” e outros bombons do gênero. Ou seja, cria-se uma cultura gritante e oba-oba de que não somos racistas - para uso externo -, mas nas entrelinhas, nas atitudes cotidianas, esses racismo e preconceito ficam patentes.


Em entrevista para a Gazeta-Magazine em 1943, Lobato responde ao repórter Silveira Peixoto sobre como havia surgido a cozinheira do Sítio: “Tive em casa uma Anastacia, ama do meu filho Edgard. Uma preta alta, muito boa, muito resmunguenta, hábil quituteira... Tal qual a Anastacia, ou a tia Nastacia dos livros.4A mesma que ele cita no ano de 1912 ao amigo Godofredo Rangel: “O peralta é o Edgard. Põe-me doido e é escandalosamente protegido pela mãe e a tia Anastacia, a preta que eu trouxe de Areias e o pega desde pequenininho. Excelente preta, com um marido mais preto ainda, de nome Esaú.5


Este outro trecho soa estranho na voz de um “empedernido racista” como muitos o definem: “A grande coisa da Bahia é o negro, e das manifestações da civilização negra, tão profundamente africana, o candomblé é o produto supremo”, e suspirava extasiado: “O Candomblé da Bahia, dá vontade de a gente ser negro bem preto.6


Mais adiante, em outra carta, escreve que “O que salva a Bahia é o negro, que formou uma civilização muito mais séria e rica que a do branco. Uma civilização com religião própria, e medicina própria, etc, etc.7


Poucos autores escreveram tantos livros em que os negros tinham papel de destaque como Monteiro Lobato, retratando-os desde seres monstruosos, como o Bocatorta, até primores de alma humana como o Timóteo, jardineiro que compunha poemas com flores. Bugio Moqueado, História dum capão de pintos, Negrinha, “Quero ajudar o Brasil”, só para ficar em contos mais famosos, todos trazem negros como personagens de destaque na trama e são fiéis ao retratar o papel que ocupavam na sociedade. Isso sem falar no único romance escrito por ele – e, certamente, o primeiro livro brasileiro de ficção científica – chamado O Presidente Negro, que tratava justamente do racismo nos EUA no distante ano de 2228. Não era Lobato o racista, mas sim o Brasil inteiro; não foi mais ou menos racista que os seus contemporâneos: ele só fez por colocar em letras de forma o que ia pelo país afora, deixando retratos fiéis de uma época e de seus preconceitos. Entretanto, seu legado maior foi o fato de discutir o assunto e provocar essa sociedade, colocando uma antiga mucama na Lua cozinhando para São Jorge, ou indo para a Europa devastada do pós-guerra colocar ordem na casa.


Não vou entrar aqui no mérito da criação do Dia da Consciência Negra, nem nos sistemas de cotas, tampouco no politicamente correto afro-descendente ou afro-americano. Deixo apenas uma contribuição ao assunto, para que se veja como é delicada e complexa a questão, e que não basta criar um feriado, mais um entre tantos, se seu significado é vazio.


Boa Semana!

Imagem: Anastácia e Guilherme Lobato, na Fazenda Buquira em 1913. Foto tirada por Monteiro Lobato.

1PENTEADO, Yolanda. Tudo em cor-de-rosa. p. 38

2MORAIS, Fernando. Chatô, o rei do Brasil., p.111

3O Sacy Perêrê – Resultado de um inquérito.

4LOBATO, Monteiro. Prefácios e Entrevistas. p.196

5Idem. A Barca de Gleyre. v. 1, p.326

6Idem. Cartas escolhidas. v. 2, p. 244

7Idem, ibidem. p. 260

5 comentários:

Fábio Mayer disse...

Putz!

Eu bem queria ter escrito isso aí em Prédica e História, tá perfeito!

Eu penso que a questão da libertação dos escravos estava numa fase gradual no momento da Lei Áurea. As legislações anteriores fariam com que em 20 ou 30 anos a partir de 1888 não houvessem mais escravos, em um processo que, TALVEZ, aliviasse o problema que apareceu de sopetão quando, na tentativa de salvar a monarquia atraindo para si a simpatia dos anti-escravocratas, a Princesa Isabel decretou a tal lei e de chofre, tirou milhares de escravos desta situação, mas colocou-os na liberdade miserável.

O que sucedeu foi o que você narrou, arranjaram um novo problema e o varreram para baixo do tapete.

Não custa lembrar que nas décadas que seguiram, o Brasil atraiu imigrantes europeus e asiáticos que colonizaram vastas áreas do seu território inclusive com fianciamentos estatais, áreas que podiam ser deferidas aos negros libertos, o que não foi feito por racismo de um lado, e porque eles ainda eram mão de obra baratíssima a ser explorada pelas elites da época. Se tivessem feito isso, o Brasil seria menos europeu ao sul, mas certamente seria um país de desigualdades menores, conquanto bem menos industrializado.

Mas o fato é que o problema foi levado com a barriga durante todo o século XX e o Brasil sempre foi tão ou mais racista que os EUA, apesar dessa fachada de diversidade, uma face hipócrita do país.

Pouco li de Monteiro Lobato, mas pela biografia dele, me parece que ele distinguia bem o negro do caboclo, aquele, ele considerava trabalhador e eficiente, este, era simbolizado pelo Jeca Tatu. De qualquer maneira, Lobato foi um escritor do seu tempo e seus personagens reproduzem o senso comum da época, onde negros eram bons criados, caboclos, maus criados e os brancos de origem européia, de regra chefes.

Ricardo disse...

Caramba, Fabio! O seu comentário já dá um belo artigo! acho que vale a pena vc continuar essa conversa no Prédica sim, vou ficar esperando.

Sim, Lobato tinha algumas idéias muito avançadas; afinal, mexer com o caboclo foi mexer num vespeiro. Depois ele se redimiu, dizendo que "o Jeca não é assim, está assim", por conta das doenças causadas pela penúria extrema. Tem um texto em que ele diz que o Jeca é a melhor coisa deste país, mesmo com todas as suas doenças.

Quanto aos negros, infelizmente esse era o retrato da época: marginalizados, analfabetos, ignorantes (no sentido cultural), supersticiosos, vítimas de todo um processo e não pq acordaram e decidiram que assim seriam suas vidas.

Enfim, são coisas desse nosso Brasil-sil-sil...

Obrigado pela visita.

Kandy disse...

Concordo com seu ponto de vista no sentido de que o feriado é vazio, o racismo existe ainda que camuflado etc.

Ressalvo, entretanto, que quaisquer trechos da literatura só podem ser interpretados dentro de um contexto. Concordo com o que disse sobre Lobato não ser o racista, mas retratar em sua obra a sociedade em que vivia. Entretanto, se de fato ele discordasse disso, sendo revolucionário como sempre foi, deixaria isso óbvio em sua obra, o que não ocorre. Apesar de abordar o assunto na obra, como no trecho da fala da Emília citado, ele não critica o racismo assim como não deixa o assunto em aberto para discussão, pois o trecho citado está fora do contexto. Ele retrata a época e ponto.

Esse é um dos problemas por que as crianças de hoje deixaram de ler ML. É extremamente difícil de explicar a elas essa coisa da época, do por que era assim e não como hoje, tempos de politicamente correto hipócrita para todo lado. As crianças de hoje não têm formação suficiente para desenvolverem espírito crítico e lerem Monteiro Lobato como se deve. O que é uma pena.

Anônimo disse...

Estou com a Kandi. Comentava isso com o Rick (se não me engano) outro dia: quando eu era pequena, a gente lia livros de toda espécie, até com ortografia antiga, e ninguém morreu por causa disso. Hoje é um estofamento extremo, que só pode tornar as crianças adultos... preconceituosos.

Ana Ramon disse...

Olá Ricardo. Não esperava nada encontrar um texto destes e com tanto fôlego. Uma verdadeira aula de História e de Humanismo.
Sendo portuguesa sei que muito do que contas tem a ver com os preconceitos deste meu povo que infelizmente ainda continua idêntico, embora de uma forma mais atenuada ou mais hipócrita. Os problemas continuam a surgir com a vinda de pessoas de vários países africanos, de Leste e também do Brasil. Infelizmente é a realidade que temos.
Parabéns por este magnífico post.
Um abraço