segunda-feira, novembro 12, 2007

Mais vale um pássaro na mão...


- E aí, patrão?


- ...

- O torneio foi da hora.


- ...

- Cantou bem.

- ...

- Eu ia colocar na roda, mas a roda do meio tava meio pequena.

- ...

- Peguei o 8°. O último deu 146. 14° lugar...

- ...

- Vinte e oito pau? O preço é esse, o passarinho é certo. Se eu vender o Asinha eu pego o Renegado.

- ...

- E o Repetidor; pego os dois por 15 e volto dez conto.

- ...

- Ah, tem o Pinico. Mas preciso travar o meu passarinho nos 10, dá muita paulada. É duro as vezes acertar.

- ...

- E como foi em Maringá?

- ...

- Qual passarinho ficou em segundo?

- ...

- Ah, o Titanic. Quanto deu nele?

- ...

- 32!? Carai! Lembra que o Nequinha vendeu ele como xeba?

- ...

- Ah, o Cacique é tranqueira, afemeou na roda em Piracicaba.

- ...

- O Mezenga tá um demônio, cada paulada. Ficou sozinho na roda, tirou primeiro. Me arrependi de ter largado ele pro Vermelho; aquele cara é um tranca. Peguei o Capeta no rolo, ele me voltou um relógio e dois conto, mas não valeu a pena.

- ...

- Que dia vai ser o torneio?

- ...

- Ah, ali a vai ser a roda mais forte.

- ...

- Fé em Deus.

Todos os que leram até o fim o trecho acima devem estar com cara de interrogação. Esse é o pedaço de uma conversa telefônica entre passarinheiros. Muita gente não sabe o que é isso, explico. Passarinheiro é coisa antiga, deve existir desde que o primeiro peludo construiu uma gaiola e lá prendeu um pterodáctilo que trinava a romper das madrugadas mesozóicas. Organizam torneios nos quais o pássaro que canta mais e consegue “afinar” os concorrentes, vence. Existem torneios clandestinos de briga, as chamadas rinhas, onde canários da terra são colocados para brigar sob as apostas da assistência.


No caso de torneios de canto (ou “fibra”, pra usar o jargão dos passarinheiros), são organizados por associações e integram diversas etapas de um campeonato, em geral regional. Existem diversas associações que cadastram os participantes, bem como fornecem anilhas (pequenos anéis que ficam na canela dos pássaros) e indicam que são aves criadas em cativeiro e, portanto, legalizadas. Se existem fraudes? Claro que não; por acaso estamos no Brasil? Cada idéia.


Picharros, curiós, canários da terra, pintassilgos, tico-ticos, diversos são os pássaros que participam desses torneios. Os valores de um campeão são altos: 30, 50 mil reais são valores normais nesse tipo de evento. Diversos casos em que carros novinhos foram dados em troca de uma gaiola com um passarinho dentro.


Dia desses ouvi uma conversa entre passarinheiros e que, involuntariamente, era perpassada de uma suave ironia política:


- Você viu o torneio de Brasília?

- Não, tava em Jaú.

- Sabe o Nico, aquele sarará de Sorocaba?

- O do Escort vermelho?

- Isso! Então, ele levou o Corisco, aquele picharro irmão do Titanic.

- Tô ligado...

- Colocou o bicho na roda e só paulada, era boi seguido, o diabo não parava... Tirou o Mezenga, o Caolho, o Zarico; o Pelé afemeou!

- Tá zuando!

- Sério. Pois foi tirando todos da roda, e só ele ficando ali no meio. Resultado: tirou primeiro lugar e parece que ofereceram 70 conto nele.

- Carai!

- É, mas o Nico recusou. Pior de tudo: como o bicho era tinhoso e não saiu da roda, mudaram o nome dele de Corisco pra Renan...

Boa Semana!

4 comentários:

Janaína Perez disse...

huahauhaua
esse final foi demais!
bj

Mel disse...

Oi Ricardo, indiqui o teu texto para republicação no site Lima Coelho. Gostei muito, além de hilário é literatura de boa lavra.

Mel disse...

Oi, o site é

http://www.limacoelho.jor.br/vitrine_literaria.php

Ricardo disse...

Olá, Mel!

Muito obrigado pela indicação, já vi que foi publicado.

Fico feliz por vc ter gostado e apareça sempre.

Abraço