segunda-feira, janeiro 28, 2008

Homo sapiens?



São Paulo, 25 de janeiro de 2008: a cidade comemora os seus 454 anos, e no tradicional bairro do Bexiga um bolo com 454 metros de comprimento é uma das atrações do dia.

Combinamos, Letícia e eu, de fotografar a miséria humana que seria o ataque impiedoso pela massa esfaimada, ávida por aparecer melecada de glacê. Como tradicionalmente o bolo é atacado ao meio-dia, chegando lá por volta de onze horas daria tempo de arrumar um local privilegiado para tirarmos nossos retratos e tecermos comentários ácidos sobre a triste condição humana.


Ah, ledo engano! Quando lá chegamos, a patuléia já se dispersava com bolo nos cabelos, na cara, em sacolas e recipientes vários (vide a matéria no Flanela Paulistana). Tive que estacionar uns dois quarteirões além do epicentro da coisa; viemos então pelo meio daquela miséria humana, aquele povo sujo carregando como troféu uma sacola cheia de uma massa disforme, resto do que foi um pão-de-ló coberto de glacê.

O pior de tudo era a náusea que me causava aquele cheiro de suor, lixo e bolo. Ver as fotos ou imagens pela televisão não dão uma pálida idéia do que é aquilo. Pior que o asco era a sensação de impotência diante de um cenário tão mesquinho: como pessoas podem agir como uma alcatéia de hienas diante de um bolo mequetrefe? Fosse na Somália ou na Etiópia, onde a fome é uma coisa real, até posso entender, mas numa cidade como São Paulo (onde existe pobreza, sim, mas não me consta que ninguém morra de inanição)? E olha que eu já me enfiei em cada buraco, já fiz coisas que Deus olha espantando, mas presenciar aquele bolo pisoteado foi uma das mais chocantes.

Nem nosso costumeiro café tomamos. Com um riso nervoso, disse que precisávamos ir para um extremo daquilo tudo, Shopping Iguatemi ou a Daslu, onde a miséria humana se exibia menos galhardamente. Acabamos no Paulista, admirando vitrines e tomando um espresso (mais caro que café de padaria e não tão gostoso). Teoria do contraste.

Enfim, boa semana!


Explicação necessária: minha amiga Ana Ramon, que vive em Portugal, muitas vezes fica sem entender regionalismos cá deste blog. Assim sendo deixo os esclarecimentos: Bexiga é um bairro tradicional, reduto de imigrantes italianos no século XIX, e considerado um dos pontos turísticos e tipicamente paulistanos. Shopping Iguatemi e Daslu são lugares de consumo classe AAA, reduto de gente endinheirada (alguns nem tanto) e chic (muitos, mas muitos mesmo, nem tanto).

7 comentários:

Janaina disse...

Aff!
Esse é um daqueles típicos casos em que doce demais ataca o fígado, mas não de quem "come"(?!!! Dá pra usar o verbo "comer" nesse caso? Acho que não...), mas sim de quem vê. Até o meu reclamou ao ver as fotos, augh!...

Bj,
Jana

malu campos disse...

ahahahahahaha!!! Imagino o que voces passaram. Eu tambem a 10 anos atras fiz minha "excurssao sociofilozofica". Meu marido bem prudente nao quis participar. La fui eu e uns amigos.
So mesmo ao vivo para captar a cena.

Leticia disse...

Reportagem completa, hein, Rick? Nunca mais, forévis and névis. Aliás, essa primeira parte do dia foi um programa de índio!!!!

Leticia disse...

Janaína, não consigo entra no seu blog, porque não sou "Blogger" e, além de tudo, me faltam alguns neurônios. Me passa o endereço?

Leticia disse...

Já entrei lá pelo link do Rick, dããã....

Ana Ramon disse...

Olá Amigo! Estava a ler este teu post e a lembrar-me da cidade de Viseu que em 2003 resolveu fazer a maior broa do mundo com 402m de comprimento e 4.190 Kg de peso e em 2005 fez o maior pão com chouriço com 975,40m de comprimento e cerca de 8 toneladas de peso. Para quê? Para ser incluída no livro do Guinness. Só relacionei o teu relato com esta memória, porque dei comigo a pensar que se no final das medidas que proporcionaram à cidade de Viseu a grande alegria de com este esforço ser incluída em tão respeitável e útil livro repleto de vencedores em provas estúpidas e inúteis, se nesse final, dizia eu, deixassem a população servir-se à vontade, certamente que o cenário seria idêntico embora com menos aparato devido à falta do creme de cobertura. Mas vá lá que não o fizeram. Trataram de cortar tudo em bocados e vender a quem quisesse provar, o que ordenou um bocado as coisas.
Agradeço a explicação final. Na realidade estava mesmo precisada.
Um beijinho grande e sê bem vindo :))))

Glaucia disse...

A sua triste história me lembrou da história do pão de Sto Antonio, que inclusive virou post no blog da Kandy.
Qdo presenciamos esse tipo de comportamento animalesco, entendemos porque nosso país está do jeito que está. Em uma palavra amigo: falta tudo aqui, mas principalmente educação.
BJSSS