domingo, março 23, 2008

Quando eu era criança...

Semana Santa sempre me traz à memória algumas coisas marcantes de minha infância. Talvez Freud explique com palavras mais técnicas, mas eu prefiro a definição do Guilherme de Almeida: que somos reflexos de nossa infância.

Pois bem, quando eu era criança (sim, já fui criança um dia, apesar de ter gente que prefira acreditar que eu tenha vindo pra cá com o Circo Espacial), a partir da quinta-feira já se iniciava uma série de “não pode” e “é pecado” que nos inculcava um sentimento de culpa tão grande que a maior impressão que tenho desses dias era de escuridão, melancolia.

Não se podia ligar TV, rádio, vitrola, jogar bola, brincar, falar alto, xingar alguém, brigar, dar risada. Em casa, apesar do catolicismo mais de tradição que religião, essas regras eram observadas da mesma forma... Era somente um hábito que todos seguiam. A bacalhoada da sexta-feira era (e ainda é) imprescindível. Mas no sábado é que a coisa ficava boa: malhar o judas.

Antes de me escarnecer, lembre-se que eu tinha 7, 8 anos, e não entendia nada sobre perdão ou justiça. Crianças, para nós o que valia era a lei de Talião: olho por olho, dente por dente. Voltemos ao judas: era preparado com antecedência, deixando os retoques para a manhã do sábado tão esperado. Muitas vezes recheávamos o boneco com bombinhas; mais crescidos e maliciosos usávamos meias cheias de papel costuradas na braguilha aberta. Políticos sempre emprestavam o rosto ou o nome, e lembro de uma vez que minha madrinha fez com que retirássemos o nome do então presidente Figueiredo (“Credo, se a polícia pega vocês vão ver o que é bom!”)

Os postes eram poucos pra tantos bonecos. Ao meio-dia, rojões pipocavam pelo céu e começava a malhação. Em menos de 15 minutos só restavam trapos e jornal queimado pela rua, misturados ao cheiro de pólvora e uma sensação de dever cumprido: nós havíamos vingado Nosso Senhor! No dia que me perguntaram: “Mas se Jesus perdoou Judas, porque vocês fazem isso?” minha resposta foi o silêncio. Como diz o ditado, de boas intenções é calçado o caminho do Inferno.

Isso não nos tornou bandidos ou justiceiros, foi apenas uma fase de nossa vida. Hoje eu não incentivaria os filhos que não tenho a fazer o mesmo, pois por mais que sejamos reflexos de nossa infância, temos a capacidade de pensar e ver o que foi fundamental na nossa formação. O Sábado de Aleluia fica como uma lembrança da intolerância e da violência em nome de uma boa causa. A mesma intolerância que vemos todos os dias em nossa vida, a mesma dificuldade de perdoar e esquecer.

A dificuldade de oferecer a outra face.

Feliz Páscoa e Boa Semana a todos!


6 comentários:

Janaina disse...

hum...
essa história de "até respirar" ser pecado tb era (ou ainda é, rs), pregada aqui em casa e o que me chateava profundamente era a proibição de cantar durante a quaresma, (que lástima!!!!). Ainda bem que as coisas mudaram(um pouco)...rs.
Bom, eu nunca malhei Judas, mas achava que o Coelhinho da Páscoa habitava MEU telhado, (com direito a TV e td), no sábado de Aleluia, e esse "egoísmo" da minha parte tb acabou deixando uma marca de aprendizado das bem gdes nesta pessoa aqui... Mas essa é uma longa história...
Bj

Glaucia disse...

Vejo que minha familia não era tão rigida assim, pois eu tinha uma vida quase normal na Sexta feira Santa, exceto o fato de ter que almoçar arroz e ovo frito. Acontece que como eu não gosto de peixe, não acompanhava a tradicional bacalhoada da família, portanto entrava em cena o Plano B: Ovo Frito. Durante anos ficou em minha memória que Sexta Feira Santa era dia de ovo frito, o precursor dos ovos de chocolate que ganharia no Domingo de Páscoa. Na minha cabeça: Nada mais justo, tinha tudo "a ver"...
Nunca malhei Judas porque minha mãe dizia que é falta de educação bater em quem quer que fosse (mesmo que fosse o Judas).
Mas a minha festa era procurar os ovos que eram escondidos juntamente com bilhetes do Coelho por todo o jardim.
Feliz Páscoa!!!!

Ana Ramon disse...

Engraçado que a Páscoa da tua infância lembrou a minha, cheia de proibições horríveis. Na minha casa podia ligar-se o rádio, mas não valia a pena porque só passava música religiosa cheia de Requiens de variadíssimos compositores. Para uma criança, mais valia nem ouvir nada. Também não se podia rir, brincar, falar alto. O sábado era um dia cheio de alegria que mais não fosse pelo terminar de todo aquele ambiente negro e depressivo. Onde eu vivia ninguém fazia bonecos a simbolizar Judas e por isso não havia cenas de violência contra ele. Sábado era o dia da libertação, da algazarra, da boa comida e pouco mais. O domingo era o dia do almoço da família e estava a Páscoa passada.
Tens um tipo de escrita que nos empurra para a frente, para o palco, oferecendo-nos memórias como se lá estivessesmos estado também.
:))))))))))))
Um beijinho grande

s_luciane73@hotmail.com disse...

Em casa nada era proibido (e ainda não o é! rsrs), podíamos fazer tudo que fazíamos nos outros dias do ano... tudo era felicidade! Talvez por isso o Sábado de Aleluia me traga lembranças tão doces... e não só por causa dos chocolates! rs
Seu modo de escrever realmente nos transporta para o tempo em que as coisas aconteceram, e passamos de meros "espectadores" a participantes ativos.
Tenha uma ótima semana! Bjns

raquel disse...

Ricardo

eu só lembro de minhas birras... "não como peixe, tem cheiro ruim, não, não e não!" Não havia castigo ou medo do inferno que me dobrasse! Comia ovo e ervilha.
Nessa época e morando na campanha nem sabia o que era chocolate!

*Patience* disse...

Oi Rick
Obrigada pela resposta no e-mail (s_luciane73@hotmail.com), quando deixei o recado me enganei e não loguei com minha senha, saiu meu e-mail pessoal... (dãããã)rsrsrsrs
Um ótimo final de semana, que já está chegando de novo...
Bjns