sábado, outubro 04, 2008

Cena da roça



A chuva da manhã trouxe consigo as nuvens que acinzentaram o dia e um mormaço que deixa a gente sem vontade de fazer nada, numa preguiça boa. Pois foi dessa preguiça sonolenta que o barulho incomum da passarada e um zumzum no galinheiro vieram me tirar.

Estico os braços, suspiro e vou até a varanda dar uma espiada no que acontecia; não levou muito tempo pra que descobrisse o motivo de tamanho alvoroço entre os bichos de pena: era revoada de içá. O leitor urbano ficou na mesma, mas calma lá que eu esclareço.

Içás são as jovens formigas aladas que nessa época saem em revoada em busca de lugares para criar novas colônias. Nos dia de içá é grande o alvoroço entre os bípedes plumados e, em alguns lugares, dos bípedes sem pena também: é que içá torrado é uma iguaria apreciadíssima em certas regiões brasileiras, notadamente no entorno do vale do Paraíba. Ainda hoje é possível ver gente de latinha ou vidro nas mãos em busca do olheiro de onde saem as formigas voadoras. Por essas e outras bem diz o povo que "quando quer se perder, formiga cria asas". Lobato mesmo foi um grande apreciador de içá torrado, que os amigos mandavam de Taubaté para ele.

Fui ao quintal e vi que a galinhada estava em polvorosa com os içás que caíam no galinheiro, mas de olho comprido nas outras que vagavam pelo gramado. Abri a porta do galinheiro e foi aquela festa: voavam ou saltavam de pescoços espichados pegando as formigas em pleno vôo, ou saíam em desabalada carreira com as asas abertas.

Andorinhas em rasantes riscavam o céu como pequenos filetes negros; um bem-te-vi enchia o papo executando piruetas no céu. Achei um olheiro que parecia um bico de chaleira em ebulição: centenas de milhares de içás testavam as asas pela primeira vez. Com um quit-quit chamei a galinhada, e foi um banquete: brigavam como doidas diante de tanta fartura.

Muitas vezes tenho dó de matar esses insetos tão organizados e trabalhadores, mas quando vejo o marmeleiro tosado ou a mexeriqueira de galhos nus me vêm ímpetos hitlerianos, e lá me vou atrás do formigueiro, com a bomba de Pika Pau nas mãos. Já está novamente o raro leitor de cara torcida, sem entender o que escrevi, e pensando em procurar algo melhor para ler. Mas se continuou, lá vai a explicação: Pika Pau é uma famosa marca de formicida em pó, que através de uma bomba inalamos (não é essa a palavra correta, bem sei, mas foi a que melhor calhou) no formigueiro.

A noite, que estava à espreita por detrás do morro, aproveitou que o sol começou a se esconder e veio surgindo de mansinho. Uma estrela aqui, uma sombra ali, a passarada foi sumindo, o galo buscou seu poleiro e só algum pinto tresmalhado piava aflito em busca da mãe.

A brisa que sacudiu o arvoredo também aliviou o mormaço; o céu já perdia todas as cores, tornando-se azul escuro, e com alguma estrela surgindo no meios das nuvens esfiapadas.

Foi-se o dia, veio a noite. Mais uma noite da roça.




3 comentários:

Leticia disse...

Ai que delícia! Quer me dar inveja, é?

Ana Ramon disse...

Já estava com muitas saudades deste tipo de textos.
Por cá as formigas (com outros nomes) também criam asa e voam do formigueiro para se acasalar. Mas não me lembro de assistir a um tumulto como o que descreves das galinhas em pulgas para apanhar formigas... muito interessante e empolgante :))))
Quanto ao petisquinho...acredito que seja saboroso, mas... huummm... julgo que não teria coragem de experimentar.

Ana Ramon disse...

Isto é que estás mesmo um preguiçoso!
:))))))))))))))