domingo, setembro 03, 2006

Boa Semana - Parole

Estava pensando em como as pessoas dizem palavras com sentido totalmente diverso do real significado, na grande parte das vezes pela semelhança do som, isso que em linguagem dos gramáticos se chama fonética. Outras não.
Querem um exemplo? Conheço um monte de gente que diz “geração” no lugar de “encarnação”. Comentam qualquer fato e lá vem a pérola: “Acho que na outra geração eu fui gordo” ou “Na outra geração devo ter morrido afogado, esse medo de água”.
Uma que também concorre é “descendência” no lugar de “ascendência”: como posso dizer que uma linda menina loirinha de olhos azuis tem “descendência” alemã? Já vi mães com 12 anos, mas com cinco?
Muita gente ainda diz “nortista” ao invés de “nordestino”, “tráfico” no lugar de “tráfego”, “concedido” por “concebido” ou trocam “circuncisão” por “circunscrição”, o que pode levar a sérios problemas...
Fiquei sabendo dia desses, num encontro do VivaSP, que para indicar algo de muito vulto o correto é “vultoso”, e não “vultuoso” como eu sempre escrevi e falei. Valeu, Heloísa.
Mas todo mundo tem uma determinada cisma com essa ou aquela palavra, às vezes até uma expressão. Já escrevi um Boa Semana sobre meu hábito de dizer “Olho do dono engorda o cavalo”, substituindo o boi da história por um eqüino. E outro dia no “Idéias na Janela” descobri problema semelhante ao meu: quando criança achava que Tumitinha era um menininho de pouco amor na cantiga de roda:
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou.
O amor de
Tumitinha
Era pouco e se acabou”.
Outra música era da Marina**, num trecho que diz: “Sentir o seu corpo pesando sobre o meu”, eu entendia “peludo” no lugar de “pesando”. Ora, podia ser tema musical do Tony Ramos. E uma amiga que cantava “Eu saí do avião, com um tesouro de irmã”, no lugar de “Açaí, guardião, som de besouro, imã...” Pobre Djavan.
Muitas vezes o ouvido engana, ou a malícia entra no lugar, e o caldo entorna. E a Marininha foi minha vítima graças a uma frase num dia em que ela estava meio quieta, ensimesmada. Perguntei se estava bem, se havia acontecido alguma coisa, ao que ela respondeu: “Ai, meu, 715 coisas pra fazer. Sabe, eu fico assim tensa, compenetrada”. Eu não perdi a deixa: “Ah, tensa com penetrada? Mas isso é algum trauma? Sua primeira vez não foi legal?” Até hoje ela sofre com esse “trauma sexual” que eu inventei.
Sem falar no estrupo, na questã, no registo, no cheque adoçado ou assustado... Muita gente diz essas palavras baixinho, meio sussurradas, já que vagamente sentem haver ali algum erro, mas existe a maioria que brada aos quatro ventos, sem dó nem piedade dos ouvidos alheios. Enfim...
Entrou por uma “torta”, saiu pela outra, quem souber que conte outra.
Boa Semana!

** O nome correto da intérprete é Marisa Monte. Troquei um "s" por um "n", e olha o que deu... Obrigado pelo aviso, Simone!

8 comentários:

Kandy disse...

Que legal esse seu texto! Realmente o povo fala cada coisa... e entende outro tanto de coisa que só a cabeça de cada um explica! Minhas associações lingüísticas você já conhece. Bom saber, de novo, que eu não era a única encimesmada com o Tumitinhas!
Bjo

Paty disse...

Olá!!! Graças a Deus não tenho problemas com a minha "ascendência"!!!! Lembrei-me de uma pérola da Gabi: "problema de direção..." quando o correto era: "problema de ereção..." Se analisarmos, faz sentido, não concorda??? Beijos e boa semana para ti!!!

Luana...a mãe do Gigio disse...

Lembro de uma festa, baladinha em Sampa com a galerinha... Começa a rolar uma musica muito conhecida do Claudio Zoli e minha amiga levanta e canta bem alto: ♪♪"Na madrugada a vitrola rolando um blues, TROCANDO DE BIQUINI sem parar..."♪♪

Nem quero comentar mais nada...

Bjaoo Ri, o texto esta otimo, como sempre

Vivi disse...

Lindinho, amei! Mas vc esqueceu do "seje" e "esteje" que acabam com meus ouvidos...
Bjks
Vivi

Celia Sanchez disse...

De todas, a que mais me irrita, e profundamente, pois a ouço com enorme constância, é qustã..... Essa é de larcar e adivogado, muito singularmente usada..... Boa semana primão....

simone disse...

Adorei o texto, me fez lembrar de alguns foras que já dei quando resolvi dar uma de cantora, e aproveitando um pouco o tema, quem canta: "Sentir o seu corpo pesando sobre o meu", é a Marisa Monte.
abraços*

Ricardo disse...

Olha só: até o nome da cantora eu errei! Vou colocar uma revisão!

Thiago Quintella disse...

EU me amarro em lingüística, abrimos o rezistro da língua viva.