domingo, agosto 20, 2006

Boa Semana

Em conversa com a Marina, não sei porque cargas d´água o assunto recaiu sobre mau-olhado e benzimentos. Ela mostrou-se leiga sobre tais assuntos, e diante de meu espanto, pediu que lhe contasse sobre essas crendices. Fez mais: cobrou um Boa Semana sobre esse tema. Sendo assim, hoje trataremos de um tema esotérico-religioso-cultural, vejam só!
O Brasil é um país naturalmente repleto de crendices e práticas religiosas que muitas vezes estão à parte da liturgia oficial de cada igreja ou crença. A miscigenação que formou o povo brasileiro unia três povos profundamente influenciados por rituais e práticas que mesclavam os fundamentos da religião com fatores culturais do próprio ambiente. Isso deu origem ao chamado sincretismo religioso, ou seja, a mistura de liturgias de duas ou mais religiões. E, além disso, houve o acréscimo de superstições populares pra finalizar o pacote.
Quem nunca pediu para São Longuinho ajudar na busca de um objeto perdido? Quem fazia isso antigamente era Santo Antonio, mas como este também exercia a função de casamenteiro, terceirizou o serviço. Os mais ortodoxos estão escandalizados com os termos que usei? Ora, uma das características do cristianismo português é a “familiaridade” com os santos e outros membros da corte celeste. As moças casadoiras, pois não tiram elas o Menino Jesus dos braços de Santo Antonio até que ele traga um pretendente? Outras ainda fazem pior: colocam o santo de cabeça pra baixo, às vezes dentro da água, até que ele resolva o problema do celibato indesejado. E conheço muita gente que todos os dias coloca uma xicrinha de café aos pés de São Benedito. Lobato conta que numa casinha de um Jeca, na parede “embarrigada”, prestes a ruir, havia uma imagem de Nossa Senhora pendurada: “Ó, Jeca, essa parede logo cai”, ao que responde o matuto
- Ara, num vê que tem Nossa Senhora pra escorá? A parede num tem coragem de cair!
Ora, tendo toda essa familiaridade com os santos, nada mais normal que alguns fiéis serem intermediários entre o Céu e a Terra na resolução de problemas de ordem espiritual. O que os kardecistas denominam “passe”, ou seja, a transmissão de bons fluídos espirituais, os católicos chamam de benzimento, e ele tem uma vastíssima gama de atuação. Existem doenças que só se curam pelas mãos de um benzedor ou benzedeira: espinhela caída, cobreiro, mal de simioto, bucho virado... E há os que benzem animais, plantações. Existe até mesmo benzimento do mal: pois em nosso folclore o Saci Pererê não “reza” os ovos ou o milho de pipoca, fazendo gorar os primeiros e transformando em piruás os últimos? Pois todo caboclo sabe que contra isso só mesmo fazendo uma pequena cruz com carvão em cada ovo posto para chocar, ou entoando uma velha cantiga – decerto de origem africana – quando estoura pipoca: “Maria Sororoca, rebenta pipoca, Maria Sororoca, rebenta pipoca”.
Olho-gordo ou mau-olhado (mau com “u”, pois é antônimo de bom; é corruptela de mau-olhar) é um dos males mais comuns tratados pelas benzedeiras; utilizando um raminho de alecrim umas, ou um pouco de óleo outras, recitam orações pedindo ajuda dos santos e anjos para tirar a inveja e os perigos do caminho daquele por quem intercedem. E enquanto fazem isso, é um não ter fim de bocejos. Quanto mais abrem a boca, maior a gravidade do caso.
Muitas anedotas também existem por conta dessa fé popular: contam que um fazendeiro de Araçatuba estava perdendo muito gado com uma terrível peste, e foi atrás de um benzedor afamado. Pois lá vem o Tio Juvêncio, e nem bem chega na fazenda bota os olhos na mulher do fazendeiro, moça mal entrada nos trinta, bem feita de corpo, pele trigueira, rosto brejeiro.
Muito compenetrado, o benzedor diz que precisa de um quarto escuro e da ajuda da mulher do fazendeiro. Este em princípio reluta, mas pensando nos prejuízos já sofridos com a perda do gado, finalmente acaba por ceder. Entretanto, fica de ouvido colado na porta, escutando o que dizia o benzedor:
- Passo a mão no cangote, pra salvar o garrote!
- Passo a mão na canela, pra salvar a vaca amarela!
O fazendeiro, exasperado, suava frio, mas continuava ali, firme. O benzedor continua:
- Passo a mão na coxa, pra salvar a vaca mocha!
- E passo a mão na virilha, pra salvá a novilha!
Aí o pobre fazendeiro não se agüentou, e arrombando a porta gritou:
- A vaca preta e o boi zebu deixá morrer!!!
Boa Semana!

3 comentários:

Kandy disse...

Maravilhoso e com um final bem engraçado! Você conseguiu juntar história, literatura, lingüística e humor num texto só. Isso é coisa para poucos. Eu digo que seu futuro é a escrita, a história, a cultura... Você ainda vai se lembrar de mim quando o Brasil inteiro estiver te cultuando como escritor. ;-)

Lárimer Daniel disse...

Caro Ricardo (companheiro de VivaSP), gostei demais do Boa-Semana. Estarei sempre por aqui vendo as novidades e, se me perdoares, buscando inspiração... Parabéns e abçs.!

Anônimo disse...

Ricardo, sensacional essa crônica.
Ri muito com o final, você é surpreendente.
Beijos da prima fã.